Autora da dissertação de mestrado (Unicamp 2003) “A Imigração italiana no Segundo Pós Guerra e a indústria brasileira nos anos 50”, Luciana Facchinetti revela como o governo do presidente Dutra encarou o problema da falta de mão-de-obra nacional qualificada para tocar adiante a industrialização do Brasil.
“A alternativa mais imediata para suprir a indústria nacional com
mão-de-obra qualificada e para ocupação do território, foi o caminho anteriormente
percorrido: a imigração européia - principalmente.
O documento pesquisado no
Arquivo do Itamaraty, do Conselho Imigração e Colonização, emitido pelo
Presidente do Conselho, Sr. João Alberto, ao Ministro das Relações Exteriores,
João Neves Fontoura, datado de 16 de maio de 1946, intitulado'Política
Imigratória', revela o interesse das autoridades brasileiras pela questão
imigratória:
‘Senhor Ministro:
Tem este por fim apresentar a V. Exª., o Sr. Nino Galo, colaborador de
muitos anos, profundo conhecedor de problemas ligados às imigrações,
especialmente italianas.
Dentro em breve, o Sr. Nino Galo, deverá iniciar uma viagem pelos países
europeus, e atendendo meu pedido vai examinar em toda a Itália, que vai
percorrer por ser de origem italiana, as possibilidades de imigração daquela
procedência para o Brasil.
Nessas observações e estudos visará o Sr. Nino Galo, principalmente
obtenção de mão-de-obra qualificada de que a indústria parece
extraordinariamente, constituída pelos técnicos especializados e se encontram,
principalmente, na região do norte da Itália.
Esse trabalho vai ser realizado pelo Sr. Nino Galo, sem qualquer ônus para
o C.I.C., e dada a complexidade da própria natureza das circunstâncias não será
somente de grande alcance para o país, como ainda bastante penoso, razão pela
qual venho solicitar para V. Exª., a concessão de passaporte especial, para o Sr.
Nino Galo, que viaja acompanhado de sua esposa, atendendo os motivos acima
apontados, em virtude de tal documento que lhe assegura maiores facilidades no
cumprimento da missão que lhe confiei.
Devo ainda esclarecer a V. Exª. Que a concessão de tal passaporte, não
representará sequer compensação adequada, aos trabalhos que o Sr. Nino Galo
executará, o que vem tornar ainda mais justo o atendimento da presente
solicitação’ "
Um blog para difundir e aprofundar temas da presença italiana no Brasil, bem como valorizar o Made in Italy. Um espaço para troca de informações e conhecimento, compartilhando raízes comuns da italianidade que carregamos no sangue e na alma. A italianidade engloba a questão das nossas raízes italianas e também reserva um olhar para a linha do tempo, nela buscando e resgatando uma galeria de personagens famosos ou anônimos que, de alguma forma, inseriram seus nomes na História do Brasil.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
terça-feira, 1 de junho de 2010
História ( 213) - "Far l'America (124)": O valor da narrativa testemunhal dos primeiros imigrantes
"As sagas migrantistas, embora possam ter um valor histórico questionável, são inestimáveis, do ponto de vista antropológico, pois alertam o pesquisador acerca das categorias que, no presente, merecem ser acionadas sobre o passado.
Entre tradições inventadas ou ressignificadas (ou não), a história se refaz. Para o antropólogo, a riqueza dos escritos históricos consiste em poder neles observar, mesmo que de uma forma limitada (como foi o meu exercício neste artigo), o modo como se posicionavam, em termos sociais (espaciais e temporais também), aqueles homens e aquelas mulheres e crianças — observar não só a maneira como viviam mas, acima de tudo, o que permitiu historicamente que eles se reproduzissem culturalmente, considerando-se que a cultura é sempre um campo aberto, dinâmico, vivido por personagens reais que sentem, pensam, agem e procuram sobreviver, física ou psicologicamente.
Esses sujeitos são negociadores que aprenderam a se referenciar conforme as interações sociais advindas de suas demandas. As ítalo-brasilianidades são negociações, seja em termos individuais ou coletivos. Embora se baseie num passado tido como fonte, trata-se de uma construção do presente sobre o passado, clivada por situações de classe, gênero, idade, entre outras". (Fonte: Maria Catarina Chitolina Zanini, professora da Universidade Federal de Santa Maria, (autora do trabalho "Um olhar antropológico sobre fatos e memórias da imigração italiana" )
Entre tradições inventadas ou ressignificadas (ou não), a história se refaz. Para o antropólogo, a riqueza dos escritos históricos consiste em poder neles observar, mesmo que de uma forma limitada (como foi o meu exercício neste artigo), o modo como se posicionavam, em termos sociais (espaciais e temporais também), aqueles homens e aquelas mulheres e crianças — observar não só a maneira como viviam mas, acima de tudo, o que permitiu historicamente que eles se reproduzissem culturalmente, considerando-se que a cultura é sempre um campo aberto, dinâmico, vivido por personagens reais que sentem, pensam, agem e procuram sobreviver, física ou psicologicamente.
Esses sujeitos são negociadores que aprenderam a se referenciar conforme as interações sociais advindas de suas demandas. As ítalo-brasilianidades são negociações, seja em termos individuais ou coletivos. Embora se baseie num passado tido como fonte, trata-se de uma construção do presente sobre o passado, clivada por situações de classe, gênero, idade, entre outras". (Fonte: Maria Catarina Chitolina Zanini, professora da Universidade Federal de Santa Maria, (autora do trabalho "Um olhar antropológico sobre fatos e memórias da imigração italiana" )
História ( 212) - "Far l'America (123)" - Imigração no Rio Grande do Sul nas memórias de Julio Lorenzoni (2)
Ao analisar as Memórias de Julio Lorenzoni, imigrante vêneto que chegou ao Rio Grande do Sul no final do século XIX, Maria Catarina Chitolina Zanini, professora da Universidade
Federal de Santa Maria (autora do trabalho "Um olhar antropológico sobre fatos e memórias da
imigração italiana" )
faz as seguintes observações:
"Conforme Lorenzoni, os colonos, ao receberem seus lotes, começavam a limpeza do terreno e tratavam de armar uma cabana de pau-a-pique, 'coberta de folhas de palmeira, que havia de servir de primeiro abrigo para sua família'. Para dormir, faziam camas com quatro paus fincados no chão batido, a meio metro de altura, com tábuas atravessadas por cima, cobertas com ervas secas.
Este foi o modo de vida dos primeiros colonizadores, 'feito de privações', como bem ressalta o autor. Como alimento, naqueles primeiros tempos, diz ele que o café da manhã era composto de mate com algumas bolachas secas e duras, e o almoço, de sopa de arroz com feijão, o que era repetido no jantar.
Observa-se que a simbologia do imigrante italiano como ostentador de uma mesa farta, como se verá no ano de 1925, quando das comemorações do Cinquentenário, não era algo que estivesse na simbologia do pioneiro. A sua imagem é a do homem sob privação. Viviam com poucos recursos na Itália e aqui também na condição de imigrantes recém-chegados.
Será por meio do processo colonizador que a comida farta se transformará num símbolo da ítalo-brasilianidade. A primeira casa, construída após alguns meses de trabalho, segundo Lorenzoni, era de madeira, com cozinha ao lado, na qual se instalava o focolare (fogareiro artesanal, feito de forma rudimentar), 'sua pia para lavar a louça, também de madeira, e uma prateleira com grandes ganchos para pendurar o balde d'água, as panelas e outros utensílios'
Enfim, aos poucos, reproduziam em termos espaciais as categorias culturais européias. O processo de enraizamento no Brasil será uma mescla da cultura de origem com as novas formas ecológicas, geográficas e sociais encontradas. Battistel , ao se referir aos imigrantes italianos de um modo geral, salienta que as capelas eram muito mais bonitas do que suas próprias casas. Isto acontecia porque investiam seus recursos na sua construção e na das igrejas, possibilitando dessa forma estabelecer estruturas de significado em torno de tais instituições e do poder simbólico delas emanado. Enfim, quanto mais belas as edificações religiosas, melhor seria idealmente aquele povo, mais abençoada e melhor situada economicamente estaria aquela população".
"Conforme Lorenzoni, os colonos, ao receberem seus lotes, começavam a limpeza do terreno e tratavam de armar uma cabana de pau-a-pique, 'coberta de folhas de palmeira, que havia de servir de primeiro abrigo para sua família'. Para dormir, faziam camas com quatro paus fincados no chão batido, a meio metro de altura, com tábuas atravessadas por cima, cobertas com ervas secas.
Este foi o modo de vida dos primeiros colonizadores, 'feito de privações', como bem ressalta o autor. Como alimento, naqueles primeiros tempos, diz ele que o café da manhã era composto de mate com algumas bolachas secas e duras, e o almoço, de sopa de arroz com feijão, o que era repetido no jantar.
Observa-se que a simbologia do imigrante italiano como ostentador de uma mesa farta, como se verá no ano de 1925, quando das comemorações do Cinquentenário, não era algo que estivesse na simbologia do pioneiro. A sua imagem é a do homem sob privação. Viviam com poucos recursos na Itália e aqui também na condição de imigrantes recém-chegados.
Será por meio do processo colonizador que a comida farta se transformará num símbolo da ítalo-brasilianidade. A primeira casa, construída após alguns meses de trabalho, segundo Lorenzoni, era de madeira, com cozinha ao lado, na qual se instalava o focolare (fogareiro artesanal, feito de forma rudimentar), 'sua pia para lavar a louça, também de madeira, e uma prateleira com grandes ganchos para pendurar o balde d'água, as panelas e outros utensílios'
Enfim, aos poucos, reproduziam em termos espaciais as categorias culturais européias. O processo de enraizamento no Brasil será uma mescla da cultura de origem com as novas formas ecológicas, geográficas e sociais encontradas. Battistel , ao se referir aos imigrantes italianos de um modo geral, salienta que as capelas eram muito mais bonitas do que suas próprias casas. Isto acontecia porque investiam seus recursos na sua construção e na das igrejas, possibilitando dessa forma estabelecer estruturas de significado em torno de tais instituições e do poder simbólico delas emanado. Enfim, quanto mais belas as edificações religiosas, melhor seria idealmente aquele povo, mais abençoada e melhor situada economicamente estaria aquela população".
segunda-feira, 31 de maio de 2010
História ( 211) - "Far l'America (122)" - Imigração no Rio Grande do Sul nas memórias de Julio Lorenzoni (1)
Maria Catarina Chitolina Zanini, professora da Universidade
Federal de Santa Maria, no trabalho "Um olhar antropológico sobre fatos e memórias da
imigração italiana"
analisa trechos das memórias doimigrante vêneto Julio Lorenzoni (1863–1934).
"A sociabilidade daqueles colonos era limitada às festas religiosas, à missa dominical, quando se reuniam na igreja e, em seguida, na bodega, na qual compravam artigos que não produziam para o sustento familiar. Ali também ficavam a par dos acontecimentos mais distantes e, algumas vezes, recebiam notícias da "patria lontana. Julio Lorenzoni narra que, em 1879, já possuindo ele seu cavalo, que era um símbolo de status, rumava para a sede de Silveira Martins. Lá, aos domingos, encontravam-se os colonos, e as casas comerciais enchiam-se de gente. Nelas, bebiam e comiam. Depois, iam fechar seus negócios e fazer compras. A maioria logo voltava para casa, outros, porém, ficavam para jogar a mora, jogar bochas, de modo que alguns retornavam a casa 'bem alegres' . Esse era um universo primordialmente masculino, pois as mulheres, depois da missa — quando iam — tinham que retornar a casa e cuidar da prole, dos animais e dos demais serviços domésticos.
"A sociabilidade daqueles colonos era limitada às festas religiosas, à missa dominical, quando se reuniam na igreja e, em seguida, na bodega, na qual compravam artigos que não produziam para o sustento familiar. Ali também ficavam a par dos acontecimentos mais distantes e, algumas vezes, recebiam notícias da "patria lontana. Julio Lorenzoni narra que, em 1879, já possuindo ele seu cavalo, que era um símbolo de status, rumava para a sede de Silveira Martins. Lá, aos domingos, encontravam-se os colonos, e as casas comerciais enchiam-se de gente. Nelas, bebiam e comiam. Depois, iam fechar seus negócios e fazer compras. A maioria logo voltava para casa, outros, porém, ficavam para jogar a mora, jogar bochas, de modo que alguns retornavam a casa 'bem alegres' . Esse era um universo primordialmente masculino, pois as mulheres, depois da missa — quando iam — tinham que retornar a casa e cuidar da prole, dos animais e dos demais serviços domésticos.
História ( 210) - "Far l'America (121)" - Imigração no Rio Grande do Sul nas memórias de Julio Lorenzoni (1)
Julio Lorenzoni (1863–1934), nascido em Vila Raspa, partiu da Itália com sua família em 1877, aos 14 anos. As memórias desse imigrante vêneto que se fixou no Rio Grande do Sul foram traduzidas por sua filha, Arminda Lorenzoni Parreira e publicadas em 1975 quando do Centenário da Imigração Italiana no estado, sob o título Memórias de um imigrante italiano. Maria Catarina Chitolina Zanini, professora da Universidade Federal de Santa Maria, no trabalho "Um olhar antropológico sobre fatos e memórias da
imigração italiana"
analisa trechos dessas memórias.
"Ao decidirem partir da Itália para o Brasil, aqueles indivíduos procuravam realizar seus rituais religiosos, uma vez que não sabiam, conforme relata Pozzobon (1997), a religião que era praticada na nova terra. Eram aconselhados a trazer uma garrafinha de água benta, e as crianças eram crismadas antes da partida. Igualmente, na manhã que precedia à despedida de suas localidades, uma missa era realizada a fim de que fizessem uma boa viagem.
Lorenzoni assegura que, durante os primeiros anos de colonização, 1878 e 1879, a única religião que conservaram os colonos era a do coração, pois não havia igrejas ou padres. Ele sentia falta de rituais religiosos que mantivessem "vivo e ardente aquele sentimento religioso" (1975:77) que haviam trazido da Itália. Conforme o autor, a educação religiosa se dava em casa, pelas mães, que procuravam educar seus filhos na religiosidade católica. Missa só havia de três em três meses. O sentimento daqueles migrantes era o de que, sem religião, afastavam-de da civilização: 'O nosso colono não podia conformar-se com esse estado de coisas: ter que morrer sem ter um padre perto que lhe desse os confortos da religião, a extrema-unção, etc.'
Em 1880, contudo, chegou o primeiro sacerdote a Silveira Martins, e os colonos, de acordo com Lorenzoni, trabalharam todos na construção da igreja. Após a chegada dos padres, foram esquecidos 'os dois longos anos passados no meio do mato, à semelhança de animais selvagens' . Segundo Santin (1986:13), a capela, o campanário e os sinos constituíram a essência de toda a vida e de todo o universo do imigrante italiano em sua nova pátria. A força desses elementos era aquela do mundo de origem e tê-los aqui, na terra estrangeira, representava a preservação de uma determinada cosmologia".
"Ao decidirem partir da Itália para o Brasil, aqueles indivíduos procuravam realizar seus rituais religiosos, uma vez que não sabiam, conforme relata Pozzobon (1997), a religião que era praticada na nova terra. Eram aconselhados a trazer uma garrafinha de água benta, e as crianças eram crismadas antes da partida. Igualmente, na manhã que precedia à despedida de suas localidades, uma missa era realizada a fim de que fizessem uma boa viagem.
Lorenzoni assegura que, durante os primeiros anos de colonização, 1878 e 1879, a única religião que conservaram os colonos era a do coração, pois não havia igrejas ou padres. Ele sentia falta de rituais religiosos que mantivessem "vivo e ardente aquele sentimento religioso" (1975:77) que haviam trazido da Itália. Conforme o autor, a educação religiosa se dava em casa, pelas mães, que procuravam educar seus filhos na religiosidade católica. Missa só havia de três em três meses. O sentimento daqueles migrantes era o de que, sem religião, afastavam-de da civilização: 'O nosso colono não podia conformar-se com esse estado de coisas: ter que morrer sem ter um padre perto que lhe desse os confortos da religião, a extrema-unção, etc.'
Em 1880, contudo, chegou o primeiro sacerdote a Silveira Martins, e os colonos, de acordo com Lorenzoni, trabalharam todos na construção da igreja. Após a chegada dos padres, foram esquecidos 'os dois longos anos passados no meio do mato, à semelhança de animais selvagens' . Segundo Santin (1986:13), a capela, o campanário e os sinos constituíram a essência de toda a vida e de todo o universo do imigrante italiano em sua nova pátria. A força desses elementos era aquela do mundo de origem e tê-los aqui, na terra estrangeira, representava a preservação de uma determinada cosmologia".
domingo, 30 de maio de 2010
História ( 209) - "Far l'America (120)" - Imigração no Rio Grande do Sul nas memórias de Andrea Pozzobon (2)
Maria Catarina Chitolina Zanini, professora da Universidade Federal de Santa Maria, no trabalho "Um olhar antropológico sobre fatos e memórias da imigração italiana" analisa trechos das memórias o imigrante vêneto Andrea Pozzobon.
“Pozzobon relata que ao saírem de Santos, após sua chegada ao Brasil em 1885, puderam dar adeus àquela tão antipática cidade, na qual a "negrada" os chamava de carcamanos, gringos, ladrões etc., situação que os recém-chegados achavam humilhante. Esses elementos devem ser considerados num contexto em que os imigrantes eram observados como agentes de transformação e de competitividade em nível nacional. Aliás, o termo 'negro' era usado pelos imigrantes italianos como forma genérica para determinar os brasileiros. Não residia aí classificação biológica somente; ela era prioritariamente cultural.
A brasilidade será incorporada em termos identitários, aos poucos e de forma diversa, conforme os contextos históricos exigirem. Há de se observar que, ao saírem aqueles migrantes da Itália, esta havia se unificado há pouco e, de fato, não possuía enquanto nação um sentimento comum de pertencimento. Lorenzoni narra que, no vapor em que veio para o Brasil em 1877, o que se ouvia era uma mistura de vários dialetos, muitos dos quais ele nada compreendia. Enfim, eram pessoas culturalmente diversas que, na situação de partida, tornaram-se genericamente italianos. Na Itália havia rivalidades entre as localidades, e a aparente noção de homogeneização cultural se daria no Brasil, quando de emigrados italianos passariam a imigrantes italianos e, depois, a colonos proprietários.
Pozzobon narra que, ao chegarem a Porto Alegre em dezembro de 1885, surpreenderam-se com a fartura da terra brasileira: carne bovina, suína, ovina, aves, peixes, verduras e frutas. O ‘nonno’ Pozzobon, de 77 anos de idade, teria comentado: ‘Esperava encontrar aqui, ao chegar, o leão baio, tigres e macacos. Agora como uma bela melancia’ Enfim, a terra brasileira era a terra da fartura a ser por eles colonizada e cultivada. A brasilianidade foi, de certa forma, construída atrelada à noção da terra como propriedade, da comida e da manutenção da ordem familiar. A comida, aliás, desempenhará um papel adscritivo fundamental na condição de colono italiano".
“Pozzobon relata que ao saírem de Santos, após sua chegada ao Brasil em 1885, puderam dar adeus àquela tão antipática cidade, na qual a "negrada" os chamava de carcamanos, gringos, ladrões etc., situação que os recém-chegados achavam humilhante. Esses elementos devem ser considerados num contexto em que os imigrantes eram observados como agentes de transformação e de competitividade em nível nacional. Aliás, o termo 'negro' era usado pelos imigrantes italianos como forma genérica para determinar os brasileiros. Não residia aí classificação biológica somente; ela era prioritariamente cultural.
A brasilidade será incorporada em termos identitários, aos poucos e de forma diversa, conforme os contextos históricos exigirem. Há de se observar que, ao saírem aqueles migrantes da Itália, esta havia se unificado há pouco e, de fato, não possuía enquanto nação um sentimento comum de pertencimento. Lorenzoni narra que, no vapor em que veio para o Brasil em 1877, o que se ouvia era uma mistura de vários dialetos, muitos dos quais ele nada compreendia. Enfim, eram pessoas culturalmente diversas que, na situação de partida, tornaram-se genericamente italianos. Na Itália havia rivalidades entre as localidades, e a aparente noção de homogeneização cultural se daria no Brasil, quando de emigrados italianos passariam a imigrantes italianos e, depois, a colonos proprietários.
Pozzobon narra que, ao chegarem a Porto Alegre em dezembro de 1885, surpreenderam-se com a fartura da terra brasileira: carne bovina, suína, ovina, aves, peixes, verduras e frutas. O ‘nonno’ Pozzobon, de 77 anos de idade, teria comentado: ‘Esperava encontrar aqui, ao chegar, o leão baio, tigres e macacos. Agora como uma bela melancia’ Enfim, a terra brasileira era a terra da fartura a ser por eles colonizada e cultivada. A brasilianidade foi, de certa forma, construída atrelada à noção da terra como propriedade, da comida e da manutenção da ordem familiar. A comida, aliás, desempenhará um papel adscritivo fundamental na condição de colono italiano".
História ( 208) - "Far l'America (119)" - Imigração no Rio Grande do Sul nas memórias de Andrea Pozzobon (1)
No trabalho "Um olhar antropológico sobre fatos e memórias da imigração italiana", Maria Catarina Chitolina Zanini, professora da Universidade Federal de Santa Maria,analisa de que forma os imigrantes italianos que se dirigiram para a região central do estado do Rio Grande do Sul em finais do século XIX conduziram a colonização local e quais as categorias sociais presentes nesse processo. A pesquisadora usou como fonte as memórias escritas por dois imigrantes: Julio Lorenzoni (publicadas em 1975) e Andrea Pozzobon (publicadas em 1997), bem como o Álbum do Primeiro cinquentenário da imigração italiana no estado, escrito em italiano e impresso em 1925.
“(O vêneto) Andrea Pozzobon (1863–19–),aqui chegado em 1885 (Rio Grande do Sul), já com 22 de idade e recém-casado. As memórias de Pozzobon (originalmente escritas em italiano) foram publicadas (traduzidas) em 1997 por seu neto Zolá Franco Pozzobon e receberam o título de Uma odisséia na América. Abarcam o período de vida do migrante que vai de 1884 a 1928.
(..) As memórias são entrecortadas por temas, intitulados Soldado do rei; Adeus às armas; Coração aflito; Com Francesca, no altar; Arriverdérci; A travessia; Siamo arrivati, entre outros. As datas vão de 1884 a 1928, no livro publicado. Sua família era proprietária de poucos bens, o que teria sido "torrado", segundo ele, por preços irrisórios) quando de sua partida da Itália. (...)Pozzobon relata que, ao embarcarem, ‘quantas mulheres com os cabelos desgrenhados increpam os maridos que quiseram dar aquele triste passo".
Contudo, acrescenta ele, "a culpa disso é de terem ouvido falar que na América se trabalha pouco e se vestem roupas de seda’ , ou seja, a América assegurava a possibilidade de reverter a condição social na qual viviam: a de seres despossuídos e sem oportunidades, numa Itália em que comiam mal, vestiam-se mal e não possuíam prestígio algum.
(...) Todavia, a partida para a América, para alguns, era também uma passagem ritual para uma nova condição social, na qual a família como um todo teria que lutar pela sobrevivência. Para aqueles que seguiram com a parentela extensa, o desconforto talvez tenha sido menor. Para Pozzobon, a emigração foi um processo complexo em relação a diversos pontos de vista: tratava-se de uma decisão paterna à qual teve que obedecer e, no decurso da travessia, ele mudaria também seu estado civil, de solteiro para casado. Diz ele que a ‘idéia de constituir família em terra estrangeira, completamente desconhecida até em meus livros escolares, num país onde nada e ninguém me falava ao coração’ (1997:38) causava-lhe terror. E, assim, nesse quadro conflituoso, muitos migraram; como ele, sob a autoridade da decisão paterna ou familiar”.
“(O vêneto) Andrea Pozzobon (1863–19–),aqui chegado em 1885 (Rio Grande do Sul), já com 22 de idade e recém-casado. As memórias de Pozzobon (originalmente escritas em italiano) foram publicadas (traduzidas) em 1997 por seu neto Zolá Franco Pozzobon e receberam o título de Uma odisséia na América. Abarcam o período de vida do migrante que vai de 1884 a 1928.
(..) As memórias são entrecortadas por temas, intitulados Soldado do rei; Adeus às armas; Coração aflito; Com Francesca, no altar; Arriverdérci; A travessia; Siamo arrivati, entre outros. As datas vão de 1884 a 1928, no livro publicado. Sua família era proprietária de poucos bens, o que teria sido "torrado", segundo ele, por preços irrisórios) quando de sua partida da Itália. (...)Pozzobon relata que, ao embarcarem, ‘quantas mulheres com os cabelos desgrenhados increpam os maridos que quiseram dar aquele triste passo".
Contudo, acrescenta ele, "a culpa disso é de terem ouvido falar que na América se trabalha pouco e se vestem roupas de seda’ , ou seja, a América assegurava a possibilidade de reverter a condição social na qual viviam: a de seres despossuídos e sem oportunidades, numa Itália em que comiam mal, vestiam-se mal e não possuíam prestígio algum.
(...) Todavia, a partida para a América, para alguns, era também uma passagem ritual para uma nova condição social, na qual a família como um todo teria que lutar pela sobrevivência. Para aqueles que seguiram com a parentela extensa, o desconforto talvez tenha sido menor. Para Pozzobon, a emigração foi um processo complexo em relação a diversos pontos de vista: tratava-se de uma decisão paterna à qual teve que obedecer e, no decurso da travessia, ele mudaria também seu estado civil, de solteiro para casado. Diz ele que a ‘idéia de constituir família em terra estrangeira, completamente desconhecida até em meus livros escolares, num país onde nada e ninguém me falava ao coração’ (1997:38) causava-lhe terror. E, assim, nesse quadro conflituoso, muitos migraram; como ele, sob a autoridade da decisão paterna ou familiar”.
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