sábado, 1 de maio de 2010

História (175 ) -" Far l´América" (96 ): Imigração italiana em Santa Vitória do Palmar, Rio Grande do Sul

No Rio Grande do Sul o fenômeno da imigração italiana atingiu diversas áreas. Uma delas foi Santa Vitória do Palmar, no extremo Sul do Estado. Um relato da presença italiana nessa região vem de Stella Borges , professora (ULBRA) e escritora.

"Geralmente chegados através do Prata, por volta de 1865, encontramos italianos em Santana do Livramento, fronteira com o Uruguai, o mesmo acontecendo em Jaguarão, São Borja, Dom Pedrito, Santa Vitória do Palmar, Bagé e outros municípios. Em geral todas essas localidades iniciaram a receber italianos, anos antes da imigração colonial agrícola, iniciada no nordeste do Rio Grande do Sul.

Seguramente são italianos que entraram no Estado espontaneamente com recursos próprios. E que podem ter estabelecido diferentes formas de identificar-se e de serem identificados. Santa Vitória do Palmar, no extremo Sul do Estado, é um exemplo de reimigração do Uruguai ao Brasil na virada do século. A maioria são calabreses e todos conhecem suas origens; entretanto maioria não conhece ou não fala a língua familiar, não mantêm contatos com a Calábria, a não ser algumas famílias, especialmente duas. Em Santa Vitória, antes da colonização espanhola e portuguesa, habitavam a região, os índios charruas ocupando uma vasta área entre o Rio Uruguai e o Oceano Atlântico.

Em 1737, uma expedição portuguesa penetra na região, construindo fortes e delimitando fronteiras. Mas os primeiros desentendimentos entre Portugal e Espanha, no que diz respeito à demarcação só foram solucionados após a assinatura do Tratado de Madri, estabelecendo divisas naturais. Porém a efetivação de tal processo só ocorre em 1751. Muitas guerras vão se suceder no território, o que atrasa a definitiva demarcação que será concluída um século depois, em 1852. Em 1852, será demarcado o local para a fundação de Santa Vitória do Palmar.

Antes da denominação definitiva, era conhecida apenas como Andrea, nome de um dos fundadores. A região também era conhecida como Campos Neutrais, referindo-se especialmente ao período em que foram terras de ninguém, sem leis, sem reis ou seja, campos neutros (1777-1801). Esta região se estendia do Taim até o Chuí, onde então começava as possessões espanholas, do outro lado do Arroio de mesmo nome. "(...) Rio Grande e Santa Vitória do Palmar, oficialmente, foram as primeiras terras conquistadas por Portugal no RS (...) A posse militar de Santa Vitória foi assegurada, em outubro de 1737, com o estabelecimento do forte de São Miguel e Guarda do Chuí, guarnecidos por soldados da expedição de Silva Paes"(Revista Militar brasileira. Ano LX, n. 3 e 4, jul./dez. Vol. CV. Centro doc. exército, p. 64).

Os Campos Neutrais foram povoados por portugueses, após a delimitação, contando depois com a presença de outros grupos étnicos. Em 1858, o distrito Capela de Santa Vitória do Chuí (2o. distrito de Rio Grande) passa à freguesia adotando então o nome atual, Santa Vitória do Palmar. Somente em 1872 é criado o Município. A atividade econômica principal, foi especialmente a pecuária com base no latifúndio, aliás como foi em toda região da fronteira, além do comércio. Como cidade de fronteira, recebeu uma significativa leva de imigrantes, da chamada imigração espontânea, oriundos principalmente de Buenos Aires e Montevidéu. Este grupo, em função da localização e situados na fronteira do vaivém permaneceram, de certa forma, juntamente com todos os habitantes de Santa Vitória, num relativo isolamento.

Até a década de 1950, as viagens em direção norte do Estado, eram realizadas pela praia, dependendo portanto das marés. Somente a partir da década de 1960, quando foi construída uma estrada de terra, conhecida como Carreteira (estrada carretas) até Pelotas, facilitando o acesso, os santavitorienses vão estreitar relações com o Brasil. Até este período, pode-se considerar que Santa Vitória era uma cidade uruguaia, pois a infra-estrutura e a curta distância favorecia a aproximação.

Até a década de 1970, muitos que desejavam estudar, passar as férias e mesmo residir, buscavam, freqüentemente, Montevidéu ao invés de Porto Alegre. Assim, só podemos explicar a imigração italiana em Santa Vitória do Palmar numa dimensão histórica uruguaia e não brasileira, portanto diversa do processo imigratório ocorrido no contexto do Rio Grande do Sul.

Os imigrantes italianos, começaram a chegar no município a partir de 1860, trabalhando como mascates, concorrendo com o comércio dos sírio-libaneses, vendendo pelo interior do município, essa facilidade é um dos motivos que optaram por Santa Vitória; num segundo momento acabaram por ter como ramo definitivo de atividade econômica o comércio de secos & molhados. Partindo sempre da amostragem, ainda identificam-se prestadores de serviços como: sapateiros, pedreiros, soldadores (ambulante), alfaiates e atividades no ramo de transportes em diligências. Atividades tipicamente urbanas. Realizadas 23 entrevistas, todos os entrevistados alegam como razão de emigrar a fuga da miséria e o desejo de melhorar de vida. As justificativas para fixar-se em Santa Vitória são de que já havia parentes no município e que foram chamados, garantindo, num primeiro momento, a ajuda e solidariedade para atingir o objetivo – fare l’America – mito do Novo Mundo, da riqueza e da sorte. Todos os entrevistados vieram para cá ou sozinhos ou com parentes, predominando os de 1º grau como pai, mãe e esposa.

Os que vieram sozinhos se estabeleceram e depois de alguns anos chamaram esposa e filhos ou os pais, promovendo a reunificação da família. Este é um possível indício de imigração permanente. Pelo censo da população, segundo o sexo e a nacionalidade, de 1900, encontramos 166 italianos e 66 italianas, sobre um total populacional de 8.970 pessoas, sendo 80% destes, brasileiros. É interessante notar, o número excessivo de homens italianos para o de mulheres, o que colabora para a idéia de migração em Cadeia. Imigrantes italianos estão presentes em Montevidéu desde o início do século passado, sendo significativa a atuação de inúmeros combatentes italianos.

Assim como no RS, no Uruguai também chegaram grande número de imigrantes destinados a ocuparem territórios despovoados. Segundo BRIANI, em 1843 o censo registrava cerca de 4.025 italianos em Montevidéu constituindo-se na segunda coletividade estrangeira, sendo os franceses em primeiro. Desde essa data, a freqüência de chegada de italianos no porto de Montevidéu aumenta, continuando intenso até a I Guerra Mundial. A contribuição desses imigrantes foi significativa, mas a conjuntura política e econômica, na segunda metade do século passado, tanto no Uruguai como na Argentina provocou uma migração interna, fazendo com que muitos desses imigrantes percorressem cidades do interior, procurando melhores condições de vida.

É interessante notar que mais de 50% dos entrevistados afirmam ter como destino inicial ou Buenos Aires (5) ou Montevidéu (9), fazendo parte então da entrada oficial de imigrantes na Argentina ou Uruguai. Além da crise, outra justificativa para o ingresso em nossa região de fronteira, de imigrantes de diversas etnias, entre eles os italianos, tenha sido o contrato realizado pelo empreiteiro Serpa Júnior. Segundo Pasquale Corte (em De Boni / Costa, 1984, p. 65) muitos italianos "...estão em Pelotas, Rio Grande, Bagé, Jaguarão, Santa Vitória do Palmar, Alegrete, Uruguaiana, Santana do Livramento, São Jerônimo, Cachoeira e outras localidades menores." Assim que poderemos encontrar em Santa Vitória do Palmar, italianos originários do mesmo tronco familiar, encontrados também na capital Uruguai e nas cidades de Minas – Castillo e Rocha. É provável, que o mesmo se repita em outros municípios fronteiriços, como em Livramento ou Bagé. Como Santa Vitória foi sendo urbanizada, nascendo junto praticamente com o início da presença de imigrantes italianos, encontramos os mesmos envolvidos nas mais diversas atividades sociais e associações: em lojas maçônicas, clubes e sociedades pastoris, agrícolas e industriais (MELLO, Tancredo F.

O Município de Santa Vitória do Palmar. Porto Alegre: Livraria Americana, 1911). Membros do grupo italiano no município, fundaram a Società Benevolenza, em 1880, com exclusiva participação de italianos. Seus membros fundadores foram: o médico Francisco Palombo, Carmine Brundo, Luigi Bottini, Antonio Blasi, Pietro Martino, Stefano Ferrari e Giovanni Boraglia.

Da amostra, nem 50 % dos entrevistados participavam da Sociedade italiana. Dos que não participaram, um afirmou que como havia dificuldades para o sustento, não participaram de nada, só trabalharam! Os entrevistados são oriundos de diversas regiões do sul da Itália (Consenza, Napoli, Salerno; Sicilia) mas também se estabeleceram no município italianos de Firenze, Gênova e Novara. Em Santa Vitória do Palmar havia a chamada Quadra dos Italianos, mas não foi possível identificar ainda a proveniência daqueles e se outros italianos moravam fora do gueto.

Novas entrevistas deverão ser realizadas a fim de perceber as relações interétnicas, através da memória dos últimos descendentes de italianos, visando olhar de dentro com o ator e como ele, montando, desmontando e remontando sua construção/desconstrução étnica/cultural.

Estabelecendo um processo positivo de construção histórica a partir de todas as fontes possíveis, desde álbuns de famílias, fotos, filmes, cartas, entrevistas, documentos em geral e demais fontes oficiais a fim de estabelecer qual identidade é formulada nos diversos períodos da história onde o palco por nós escolhido, foi Santa Vitória do Palmar!"

2 comentários:

  1. tinha um trabalho sobre esse assunto e consegui fazer ele muito obrigada por tudo.Gostei muito dessa pagina na net continuen assim bjx♥☻☺♠♣♦•◘○

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  2. Muito legal o artigo, parabéns, sou natural de Sta. Vit, do Palmar e descendente de italianos, mas, infelizmente se perdeu essa herança cultural, no caminho das gerações, e em físico a Società Benevolenza, só restam ruinas.

    Estamos à disposição,

    Att.

    Antonio Ferari.
    jornalomomento@gmail.com

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