sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

História (224) - Contrastes Norte-Sul na imigração italiana em Pedrinhas


O artigo “Por uma etnografia feminista das migrações internacionais: dos estudos de aculturação para os estudos de gênero” ,  de autoria de Ethel V. Kosminsky ( Universidade Estadual Paulista, campus de Marília) toma como referência  o livro Italianos no mundo rural paulista), de João Baptista Borges Pereira. O professor da USP, nos anos 60 realizou pesquisa na cidade de Pedrinhas, interior de São Paulo. Num dos capítulos dessa importante obra, Borges Pereira mostra que havia diferenças entre as mulher italiana meridional e a mulher italiana vinda do Norte.


“ Após distinguir a mulher proveniente do sul e aquela originária do norte da Itália, em diferentes situações observadas, Borges Pereira afirma que a mulher do norte, em situações públicas,
‘é pouco resguardada de contatos com indivíduos de outro sexo. Vendo-a em situações públicas, não se tem a impressão de que ela esteja sob o controle do marido. Traja-se mais dentro da "moda", e a passagem da situação de solteira para a de casada não altera neste ponto o seu comportamento. As mudanças são determinadas, em tais aspectos exteriores, apenas pela idade que distingue a anciã da jovem mulher casada. Dentro de casa, a situação se altera; desaparece a mulher relativamente comunicativa e surge a mulher silenciosa. Hospeda o visitante com polidez, porém com certa frieza. Seu marido é o seu porta-voz, ao atender o visitante e ao responder às perguntas que lhe são formuladas, mesmo as de caráter doméstico. Raramente ela participa do assunto, embora esteja no mesmo recinto da reunião. Em geral, ela fica distante dos interlocutores, a um canto da sala, silenciosa, mas ouvindo toda a conversação. A confiar, porém, nos informantes masculinos, todo esse alheamento é apenas aparente e superficial, ditado por padrões de etiqueta, que de forma alguma a colocam à margem dos assuntos mais importantes da família. Para usar a expressão de um informante, a "hora da mulher falar é no travesseiro". À noite, a sós com o marido, ela dá a sua opinião, e desta forma dirige os rumos dos acontecimentos. À luz do dia – para usar uma comparação cômoda – o chefe transmite, como sendo dele, a opinião expedida pela esposa, que o grupo aceita como tendo partido do capo. Os filhos já conhecem a influência de bastidores da mulher subreptícia, por isso toda a técnica de aproximação do pai começa pela aproximação da mãe, sem, porém, colocar em dúvida a autoridade paterna’
Sobre a mulher do sul relata o pesquisador que,
‘quando sai à rua, está sempre sob a vigilância ostensiva do marido, exibindo ar de tristeza, que a roupa preta acentua. Quando o esposo está a seu lado, ela demonstra muita vivacidade, conversa com desenvoltura com os homens que lhe dirigem a palavra, toma a iniciativa das compras; quando longe do marido, ela fica cabisbaixa e silenciosa, evitando inclusive o olhar de outros homens. Esta mulher passa por extraordinária metamorfose quando substitui a rua pelo lar. Nos domínios domésticos, nada resta da mulher submissa e inibida. Em seu lugar, surge a "rainha da casa" – para usar a expressão predileta com a qual os italianos costumam designar a mulher em seu imperialismo doméstico. Exuberante nos gestos e no falar, quase sempre risonha, nega em tudo aquela tristeza pública. Vai porém, rapidamente, de um tema alegre para um assunto triste, e acompanhando a transição do tema, todo o seu semblante e seus gestos e sua voz se alteram, compondo a máscara de uma representação cênica. Loquaz, desinibida e desenvolta em casa quer na ausência ou na presença do marido, hospitaleira sem formalismo, ela toma sempre a iniciativa da conversa, colocando marido e filhos em segundo plano. Estes, quando falam, estão sempre reticentes, à espera da aprovação da "rainha", que se faz entender pelo simples olha’ ”.(Fonte: Ethel V. Kosminsky Universidade Estadual Paulista, campus de Marília - in www.scielo.com.br )