quarta-feira, 31 de março de 2010

Italiani – Pietro Mari Bardi e as obras de artistas italianos no MASP (4)

O pintor Pietro Perugino (c.1447 – 1523) é o autor dado óleo sobre tela São Sebastião na Coluna que faz parte do acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp) construído pelo professor Pietro Maria Bardi. O quadro mede 191 cm x 115 cm e foi doada pela Companhia Antarctica Paulista S.A. A obra é assim descrita no catálogo do Masp.

"A representação de São Sebastião como um jovem atado à coluna, com o corpo crivado de setas, é freqüente na história da arte e remonta ao episódio em que o santo, então capitão e com um alto posto nas hostes romanas, foi torturado por ordem do imperador romano Diocleciano, quando suas ações em favor da difusão do cristia- nismo foram descobertas. Corria o ano 303 e seu castigo foi ficar amarrado, à mercê das flechadas desfechadas por arqueiros do exército.

Segundo a tradição seus ferimentos teriam sido tratados por uma piedosa mulher chamada Irene, que o curou. A construção forte da anatomia do jovem é feita de modo a despertar solidez a expressão serena do olhar para o alto, onde o maxilar se evidencia com calma, poderia significar a reminiscência do sacrifício maior experimentado por Cristo, fato que justificaria as duas colunas laterais a sustentar o templo, porém mostrando ao longe a placidez da paisagem numa espécie de redenção. O Museu do Louvre, em Paris, possui um outro São Sebastião também de autoria de Perugino, de dimensões menores, realizado, segundo os especialistas, sete anos antes da obra do MASP. Ainda segundo os historiadores, neste quadro o artista teria tido o auxílio de seus assistentes nos detalhes arquitetônicos”

Sobre o autor a referência é a seguinte: “A maioria das notícias biográficas de Perugino, mesmo a de Giorgio Vasari, o primeiro autor a elencar as vidas dos artistas, faz referência às suas origens extremamente humildes, condição que ele iria superar com seu afinco e dedicação no trabalho. Já trabalhando em Perugia quando tinha 20 anos, o artista será notado anos depois em Florença e outras cidades italianas, porém será sempre nas duas primeiras que manterá oficinas. São importantes as obras que realizou para a basílica de São Pedro, no Vaticano, inclusive nas laterais da Capela Sistina, traba lho que executou com outros pintores de sua época como Botticelli e Ghirlandaio. Em seus ateliês muitos jovens artistas iam praticar como aprendizes, tendo sido Rafael o mais importante dentre eles".

História (138 )- O fenômeno do grande êxodo sob olhares italianos (3)

Ao inserir em seu site canções que acompanharam os imigrantes italianos na epopeia do grande êxodo, a Fondazione Paolo Cresci per la storia dell’emigrazione italiana assim aborda a questão, deixando, ainda à disposição do internauta um série de links recuperando antigas músicas.

“I canti di emigrazione sono, in origine, canti di lavoro e di amore. Nascono nella prima metà dell’Ottocento legati alle migrazioni periodiche di boscaioli, carbonai, minatori e girovaghi in genere. ’Tutti mi dicon Maremma’ è tra i più antichi e si riferisce appunto agli spostamenti stagionali interni al paese: chi canta lamenta i disagi del lavoro faticoso e malpagato e impreca perché ha perduto la donna amata. A partire dalla ‘grande emigrazione’, essi mitigano il dolore della partenza, rassicurano contro gli incerti del viaggio e alimentano la speranza di ‘fare l’America’ “.

terça-feira, 30 de março de 2010

História (137 ) – O fenômeno do grande êxodo sob olhares italianos (2)

O site da Fondazione Paolo Cresci per la storia dell’emigrazione italiana, traz imagens do seu arquivo histórico  constituído a partir da pesquisa do fotógrafo Paolo Cresci (1943 – 1997). Na sessão Percorso Didatico foram disponibilizadas fotos que revelam momentos importantes no que diz respeito ao grande êxodo italiano divido nas seguintes temáticas: La partenza; Il viaggio, L´arrivo, Le nuove Patrie e Il filo del Ricordo.

"La Partenza: La navigazione a vapore, e la conseguente diminuzione del costo del viaggio, facilitò, negli ultimi decenni dell’Ottocento, un esodo di proporzioni bibliche dall’Italia. Quell’emigrazione fu detta “grande” e si concluse soltanto allo scoppio della prima guerra mondiale. L’esodo ebbe un altro fattore di incitamento nel miraggio della terra che specialmente i governi argentino e brasiliano alimentavano in tutto il paese attraverso i loro agenti d’immigrazione. Agli occhi abbagliati di tanti contadini, che della vita avevano l’esperienza acquisita nel proprio villaggio, essi mostravano splendide immagini di campi rigogliosi in cui tutto sembrava crescere quasi spontaneamente e narravano di un Eldorado che li attendeva “in Merica”.
Per coordinare e promuovere l’assistenza agli emigranti da parte dello Stato, soltanto nel 1901, dopo anni di dibattiti parlamentari, fu istituito il Commissariato generale dell’emigrazione, dotato di vaste competenze ma di scarsi fondi".

História (136 ) – O fenômeno do grande êxodo sob olhares italianos (1)

 A saída em massa de cidadãos italianos rumo a países europeus e outros regiões do globo, sobretudo América do Norte e América do Sul, é objeto de estudo em várias instituições italianas que na internet disponibilizam importante material (textos e fotos). È o caso  Fondazione Paolo Cresci per la storia dell’emigrazione italiana, com sede um Lucca. O site da instituição toscana explica que “L’Archivio della Fondazione Paolo Cresci per la storia dell’emigrazione italiana, dal nome dello studioso fiorentino che ne ha curato la raccolta, comprende una miscellanea di materiale documentario relativo all’emigrazione italiana tra Ottocento e Novecento. Acquisito dalla Provincia di Lucca nel 1998, l’archivio è stato inaugurato il 31 marzo 2001 nella Cappella di Santa Maria della Rotonda, all’interno di Palazzo Ducale. Nel maggio 2002 è stata costituita la Fondazione che si propone la realizzazione di varie e diversificate iniziative volte ad allargare ed approfondire le ricerche sulla storia dell’emigrazione italiana e degli emigranti e la conservazione e arricchimento del proprio patrimonio”.

“Paolo Cresci (Scandicci 1943 – Signa 1997) ha svolto la sua attività professionale come fotografo scientifico presso l’Università di Firenze. Era un appassionato ricercatore e collezionista di documentazione sulla storia dell’emigrazione. Ha realizzato diverse mostre personali di fotografia e sull’emigrazione, partecipando alle più importanti rassegne di umorismo italiane ed estere e ottenendo vari riconoscimenti”.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Italiani: Imigração e Cinema no Brasil (2)

 Márcio Galdino assina texto no site  do  Archivio Storico Dell´Emigrazione Italiana  e conta  a participação de imigrantes italianos (séculos XIX e XX) na história do Cinema no Brasil.

 "Os irmãos Segreto Gaetano (1866-1908) e Paschoal (1868-1920) oriundos de San Martino Cilento chegaram ao Brasil em 1883. No Rio de Janeiro trabalharam juntos vendendo bilhetes de loteria e como jornaleiros conseguem organizar um pioneiro sistema de bancas de jornais, que prospera. Nesse tempo a maioria dos jornais editados na cidade tinham suas redações e oficinas na Rua do Ouvidor. Gaetano consegue a distribuição exclusiva do vespertino A Notícia, fundado em 1894 por Manuel Jorge de Oliveira Rocha, o mais simpático, o mais lido e o de maior tiragem

Em 1893 surge na cidade o jogo dos bichos que se alastra como uma epidemia e é logo criminalizado como contravenção penal. Os irmãos Segreto travam então contato com José Roberto da Cunha Sales (1840-1903), conhecidíssimo na Capital da República por suas artimanhas com fórmulas farmacêuticas, a mais célebre das quais a Virgolina, “para fazer voltar a estado de donzela aquelas que já não o eram”. Cunha Sales explorava o jogo dos bichos disfarçadamente no Pantheon Ceroplástico, primo pobre do Museu Grévin de Paris, situado na Rua do Ouvidor, que por sua pouca largura era alcunhada de “beco das novidades”, em cima do Café Java, ponto de venda de bilhetes de jogos. 27 de novembro 1897. Cunha Sales Pedido de patente notação n.º. 8663.

Paschoal se associa a Cunha Sales e formam o Salão Novidades Paris no Rio. Paschoal percebendo o futuro brilhante do rendosíssimo negócio das diversões adquire a Vito Di maio, que também se achava instalado na Rua do Ouvidor n.º 49, desde 1891, com uma lanterna magica. Diante do sucesso das exibições promovidas por Henri Paillie, em junho de 1897, das imagens animadas, lançadas com o nome Omniographo, Paschoal não tem mais dúvidas. Paschoal Segreto obteve a patente, que recebeu o n.º 2598, publicada no D.O.U. de 9 de agosto de 1898 p. 4623 col. 3. Paschoal ampliou suas salas na Capital Federal, em Santos, São Paulo e Campos, no norte fluminense. Foi cognominado pela imprensa Ministro das Diversões. Produziu dezenas de filmes, reportagens de assuntos locais".

Italiani: Imigração e Cinema no Brasil (1)

O site Archivio Storico Dell´Emigrazione Italiana traz um texto em português assinado por Márcio Galdino revelando a participação de imigrantes italianos (séculos XIX e XX) na história do Cinema no Brasil.

“Se a primeira exibição cinema no Brasil, ocorrida na Rua do Ouvidor em 1896 foi promovida por um francês chamado Henri Paillie, as primeiras filmagens foram feitas por Vito Di Maio. Nascido em Nápoles em 14 de abril de 1852, que chegando ao Brasil em 1891 instalou uma sala exibidora com espetáculo de lanterna mágica na rua do Ouvidor n.º 149, que em 1894 vendou a Paschoal Segreto, indo em seguida para a Europa, onde comprou aparelho, provavelmente Animatógrafo de Paul e em 6 de maio de 1897 exibiu no Cassino Fluminense, em Petrópolis, cidade elegante de veraneio carioca, quatro filmes: Ponto Terminal da Linha de Bondes de Botafogo, vendo-se os Passageiros Subir e Descer; Uma Artista Trabalhando no Trapézio do Politeama; Chegada do Trem a Petrópolis e Bailado de Crianças no Colégio, no Andaraí Cf. Verdades Sobre o Início do Cinema no Brasil. Jorge J.V. Capellaro e Paulo Roberto Ferreira. Rio de Janeiro: Funarte, 1996.

Di Maio foi um ambulante infatigável. Entre 1899/1901 promoveu exibições em São Paulo. Em 1905 estava de novo no Rio de Janeiro, promovendo exibições no chope berrante do Passeio Público, para uma platéia onde se encontrava Artur Azevedo. Em 1906 estava no Teatro Maceioense, em Alagoas! No dia 13 de janeiro de 1907 no Éden Parque, em Vitória, Espírito Santo. Ainda nesse mesmo ano chegou a Fortaleza, fixando-se aí então, definitivamente, onde veio morrer em 21 de abril de 1926”.

Italianità - Grupos folclóricos em Quiririm, Santa Catarina

O sentimento italiano se faz vivo no distrito de Quririm (Brusque, Santa Catarina) em manifestações culturais como as apresentações culturais. Os grupos Santa Lucia, Piccola Tarantella e Mazzolin di Fiori preservam raízes deixadas pelos pioneiros. O site Festa da Colônia traz um perfil desses grupos. O trabalho do Grupo Santa Lucia é assim descrito:

“Final do século 19 - A Itália vive uma de sua maiores crises econômicas - muitas famílias italianas partem em busca de uma vida melhor, partem em busca do sonho dourado "refazer suas vidas" na AMERICA, a nova Terra. 1889 - depois de 36 longos e sofridos dias em "máquina a vapore", desembarcam em terras brasileiras. Quiririm é a grande esperança de uma vida feliz, um trabalho digno, um lugar para criarem os filhos, um lugar para se ter PAZ. O coração saudoso, aflito, mas cheio de esperanças.

Crianças de todas as idades, homens jovens saudáveis e fortes dispostos a qualquer tipo de trabalho, outros mais velhos já cansados se renovando através da ESPERANÇA, mulheres GUERREIRAS - essa era a nossa gente, esses ITALIANOS, os nossos antepassados. O trabalho começava ao raiar do dia e só terminava ao pôr do sol, mas a cada semente que germinava, crescia com ela o amor pela terra, o amor pelo Quiririm, se esvaecia a tristeza e a saudade da distante Itália. Povo politizado, lutavam por seus direitos através da "SOCIETÀ" que aqui formaram; povo falante, bravo, exigente, povo festivo. Os casamentos, batizados, Dia de Santo Antonio, da Padroeira a Imaculada Conceição, Santa Lucia sempre acompanhados de grandes festas... muita comida e vinho. Bandeirinhas, arcos de bambu, flores enfeitavam as ruas e casas, nas festas um falatório tão alto que quase encobria o som da sanfona que chamava a todos para uma roda de TARANTELA. A alegria da dança reunia na mesma roda as crianças, os pais e os avós. E é através da música e da dança, que essas meninas, filhas de Quiririm, vem mostrar o orgulho que sentem em serem parte da continuidade desta história de luta, de glórias e derrotas, de sonhos e esperanças que não se encerrarão nelas, que continuarão pelos seus filhos e pelos filhos dos seus filhos.

Aqui nesse rincão brasileiro, nossos avós e bisavós fincaram os pés e é aqui nessa terra querida, que os acolheu é que queremos ficar, nessa querida Pátria chamada Brasil. QUIRIRIM NÓS TE AMAMOS, COMO ELES TE AMARAM!!

O grupo foi formado em junho de 1989, logo após a 1º Festa Italiana de Quiririm, para se apresentarem na Festa de Santo Antonio. Desde então se apresenta na Festa Italiana e em outras cidades, outros estados levando o nome do nosso Distrito. São 10 componentes, todas mulheres, dançando tarantella e outras músicas que fazem parte do universo folclórico italiano. Em 2003, forma-se o Grupo Folclórico Italiano Mirim "Santa Lucia", com meninas entre 3 e 10 anos. Nesses anos várias "meninas" passaram pelo grupo e várias ainda passarão, sempre com muito orgulho de fazerem parte da história do Quiririm”.

domingo, 28 de março de 2010

História (135 ) - Imigração em Brusque no contexto da saúde mental (2)

No trabalho "A imigração italiana e saúde mental: Mais um (louco) para Brusque?" , Cluadia Delfini, professora da Universidade do Vale do Itajaí - Univali - relata a criação do Asilo Azambuja.
 

"Inaugurado oficialmente em 29 de junho de 1902, a Santa Casa de Misericórdia de Azambuja englobava um hospital, asilo, orfanato e hospício. Porém, em 1901 já havia uma antiga casa de madeira para os doentes que eram separados de acordo com o seu grau de “normalidade”, sendo metade destinada aos doentes 'normais' e a outra para os 'anormais'.

O relatório do padre Gabriel Lux, em 18 de outubro de 1908, narra a história do Asilo a partir da história do santuário de Azambuja, que foi construído pelos imigrantes italianos da província de Milão que trouxeram uma cópia do quadro milagroso de Nossa Senhora do Caravagio, 'querendo transplantar para aqui as tradições religiosas da velha pátria.' Provavelmente seu relato foi tirado das atas escritas pelas irmãs da Divina Providência que se referiam a este episódio da seguinte forma: 'Uns pobres colonos italianos vindo-lhes em 1884, trouxeram um antigo quadro de Nossa Senhora de Caravagio muito venerada nas proximidades de Milão. Estabelecendo no seu aprazível recanto de Azambuja, levantaram uma modesta capela em honra de Maria Santíssima, e depois do trabalho os obscuros camponeses visitavam a querida mãe de Deus e ela retribuía o amor e a confiança daquela boa gente com numerosos e manifestos favores'


"Em 1876 os colonos iniciaram a construção de uma pequena capela em um terreno pertencendo a Pietro Colzani, pronta 09 anos depois, em 1885. Em 1892 o padre Antonio Eising assumiu a paróquia e construiu o hospital e “asylo de desvalidos, velhos e cegos”, sendo inaugurado em 29 de junho de 1902, com 03 irmãs da Ordem Divina Providência responsáveis pela assistência as doentes. 'A caridade não tem pátria', era o grande lema da Ordem Divina Providência, que reunia, 'como uma grande família, alemães, italianos, polacos, poloneses, austríacos. Recebe a subvenção anual do governo do Estado (paga o número de 5 dementes no valor de 1$500 réis), da municipalidade e da ajuda dos bravos colonos e de esmolas.” 2 De acordo com o relatório do padre Lux, percebe-se a presença dos 'bravos colonos' de Brusque/Azambuja na manutenção e nos cuidados com o asilo, porém, há uma carta datada de 1903, escrita pelo padre Antonio Eising ao bispo diocesano de Curitiba, que mostra que a cidade não se preocupava muito com os 'bravos/pobres colonos' ".

"Nesta carta, Eising pede a construção de um cemitério no hospital pois 'o hospital não tem pessoas para acompanhar e levar os cadáveres até Brusque, como também estão fracos. Em Brusque, a gente não se importa com os fallecidos de Azambuja porque regularmente são pobres colonos'.   De acordo com o inspetor de saúde do estado, Dr Joaquim David F. Lima, em sua visita ao Hospital de Azambuja, junto ao chefe de polícia, o asilo representava uma verdadeira: “casa de misericórdia, preenche ao mesmo tempo os fins de hospital, asylo de inválidos e desamparados, e hospício de alienados. A direção médica do hospício será confiada a um médico, de nacionalidade alemã, especialista, em que o padre Lux já se entendeu por carta. Acredito que uma vez que esteja funcionando regularmente aquelle hospício e sob a direção technica de um médico alienista, ficará em Santa Catharina perfeitamente satisfeita esta grande necessidade actual de assistência aos alienados.'(apud FONTOURA,1997, p. 28) (...)Confiando no auxilio da divina providencia e na proteção da querida mãe do céu começamos o ano de 1942 mesmo trouxe para nós uma grande mudança pelo de já a tempo planejado o transporte dos alienados ao novo hospital ereto pelo governo do estado no município de São José. As irmãs Fernandina e Custodia já tinham algumas semanas antes providenciando todo o necessário ao nosso instituto.

Em 4 de janeiro o governo mandou um caminhão e em 6 do mencionado mês levava dois outros caminhões os últimos alienados das colônia Santana. Assim nos deixavam nesse dia também irmãs Telefora e a irmã Francelina as quais conforme os desejos do governo partiram com os doentes, desse modo estava fechado o hospício de Azambuja fundado em 1902. "

História (134 ) - Imigração em Brusque no contexto da saúde mental (1)

Ana Cláudia Delfini, na qualidade de professora da Universidade do Vale de Itajaí – Univali - elaborou o trabalho "A imigração italiana e saúde mental: Mais um (louco) para Brusque?" . Trata-se do resultado de um pesquisa sobre saúde mental e imigração italiana em Santa Catarina, buscando “discutir os modelos institucionais de tratamento da loucura presentes no Brasil a partir do séc. XIX, avaliando seus reflexos e desdobramentos em Santa Catarina, analisando especificamente o tratamento dispensado aos doentes mentais, (dentre eles alguns descendentes de colonos italianos) pelas duas instituições que marcaram modelos e concepções diferenciadas sobre a loucura: o Asilo de Azambuja, em Brusque, e o Hospital Colônia Santana, em São José”.

(...) “Na segunda metade do século XIX, começou-se a pensar e a praticar uma assistência psiquiátrica no Brasil mediante a implantação da instituição asilar com a construção de hospitais de alienados nos principais centros nacionais, configurando-se uma assistência psiquiátrica cujo perfil estava adequado às propostas e necessidades políticas e sociais de modernização do país, conferindo antes uma assistência do que um tratamento curativo. O assistencialismo e a filantropia são característicos das instituições de misericórdia do sistema asilar, instalados no Brasil pelos colonizadores portugueses”.

“Com o fim da escravatura (oficial) e a vinda dos imigrantes, os centros urbanos aumentaram. Com a necessidade de mão-de-obra, a recuperação dos “excluídos” torna-se foco principal dos discursos psiquiátricos. O conhecimento psiquiátrico é ampliado através das universidades e hospícios no que diz respeito à loucura”.

“A construção dos hospícios-colônias teve como finalidade tanto o afastamento dos “loucos” do convívio social nos grandes centros, já que tais instituições eram afastadas, como o de fazer com que os doentes trabalhassem no auto-sustento do hospital, através das atividades na lavoura, diminuindo os gastos do Estado”.

sábado, 27 de março de 2010

Italianità - Raízes na Festa da Colônia de Quiririm

Tradicional colônia agrícola italiana, o Distrito de Quiririm (Taubaté –SP) teve em 1989 seu destino mudado para colônia gastronômica italiana graças à iniciativa de João Aristodemo Canavezi Filho (Deminho) que teve a original idéia de fazer uma festa para comemorar o centenário da chegada de seus antepassados na colônia.

A festa que no primeiro ano contou com a participação de 800 pessoas hoje recebe aproximadamente mais de 400.000 pessoas em todo período da festa. 2009, foram preparadas 25 toneladas de massas e doces, pelas 25 barracas do evento. Como já virou tradição, o Desfile da Imigração é um dos pontos altos da grande festa e vem sempre acompanhado de um tema. Em 2009 forma mondadas e decoradas 12 carretas, cada uma representado um pouco da história das Festa, além de alas e dos Grupos Folclóricos. (Fonte: Festa da Colônia Italiana )

História (133 )– "Far L´America (71)": Núcleo Colonial Quiririm, Vale do Paraíba

O Distrito de Quiririm, na cidade de Taubaté, Vale do Paraíba (São Paulo) tem suas origens ligadas à epopeia da imigração italiana, conforme relatado no site da Festa da Colônia Italiana .

"Embarcados em portos da Itália, traziam além da pobreza, os sofrimentos das guerras da unificação italiana. Saíam da terra natal com falsas promessas de que aqui teriam a própria terra para cultivarem, mas somente no Porto de Santos é que souberam que, na verdade, haviam sido trazidos para essa nova terra, com o intuito de substituírem a mão de obra escrava, nas lavouras de café. Nessa ocasião, os imigrantes foram remanejados para várias colônias brasileiras e, algumas famílias foram então trazidas para o recém fundado Núcleo Colonial de Quiririm, mais precisamente 118 famílias. Alguns anos depois, ainda entregues à própria sorte, sem assistência do governo, mas já com a terra própria, que era o único incentivo daqueles imigrantes, receberam então o 'Ouro Bendito ' de onde iriam tirar seu sustento e escrever a História de Quiririm. Os Freis Capuchinhos, instalados no Mosteiro da Fazenda Maristela, em Tremembé, doaram as primeiras sementes de arroz e ensinaram a manejar a terra e a fazer o plantio.

Essa técnica havia sido trazida da França, pelos Freis. Só aí os imigrantes começaram uma nova vida em uma nova terra. A Colônia cresceu, seus filhos e seus netos encheram-se de orgulho pelo progresso que propiciaram ao País, com seu trabalho digno e laborioso. A chegada dos imigrantes italianos e a formação da Colônia Agrícola de Quiririm abriu uma nova era para a lavoura de Taubaté e região, chegando a liderar a produção de arroz do Estado e assim ganhar destacada posição no conceito social taubateano devido a sua importância, esforço e produtividade. E assim os anos se passaram, plantio do arroz, do café, da batata, enfim, Quiririm era eminentemente um Distríto Agrícola.

História (132 )– "Far L´America (70)": Núcleos colonias no Vale do Paraíba

Marco Antonio Giffoni Junior no texto "A Imigração Italiana na Cidade de Guaratinguetá (1880 - 1930)”
relata a formação dos núcleos coloniais na região do Vale do Paraíba (São Paulo).

"O núcleo colonial de Canas, situada entre as cidades de Lorena e Cachoeira Paulista, foi criado com base na Lei da Assembléia Provincial de São Paulo n.º 28 de 29 de março de 1885. As terras onde se assentou o núcleo colonial foram, em sua maioria, adquiridas do Alferes Francisco Ferreira dos Reis e foram divididas em cerca de 82 lotes rurais de 10 hectares cada, que foi aumentado posteriormente para 111 lotes que, foram logo vendidos e ocupados pelos colonos e seus familiares de nacionalidade brasileira e estrangeira".

"O núcleo colonial de Canas contava com uma escola primária, uma igreja católica (todos os colonos deste núcleo professavam esta religião), um serviço de saúde, dentre outras benfeitorias. Além da produção de cereais, destinados tanto para a subsistência dos colonos, quanto para a venda no comércio local, a colônia de Canas destacou-se também pela produção de cana-de-açúcar, que era comercializada com o Engenho Central de Lorena, grande produtor de açúcar e um dos fatores que motivaram a criação da referida colônia. A produção e a comercialização de cana ajudou os colonos a saldarem a compra de seus lotes, bem como a execução de diversas benfeitorias na colônia".

"O núcleo colonial de Quiririm, tem suas origens, segundo o relatório do Engenheiro Leandro Dupret , quando o Dr. Francisco de Paula de Toledo contratou com o Ministério da Agricultura a fundação de um núcleo colonial na fazenda do Quiririm, de sua propriedade, localizada no município de Taubaté, sob diversas condições que, em última análise, reduziam-se a mandar o governo dividir a fazenda em lotes, cedendo o Dr. Toledo sem remuneração alguma, metade da área medida e ficando para si com a outra metade em lotes, intercalados com os do governo, mas obrigando-se a vendê-los a imigrantes nacionais e estrangeiros. Lavrada a escritura de cessão, nomeou o governo uma comissão para dar começo aos trabalhos técnicos e, em 16 de agosto de 1890, era inaugurada a colônia, que tinha sua sede junto à estação de Quiririm da Estrada de Ferro Central do Brasil".

"Sua população era de 424 pessoas, distribuídas em 60 lotes urbanos, 48 suburbanos e 56 rurais, sem incluir os lotes que ficaram pertencendo à herança do Dr. Francisco de Paula Toledo. Esse núcleo colonial possuía diversas benfeitorias e, o estado dos colonos, segundo o relatório de Dupret, era considerado próspero e, ressaltava ainda que faltavam poucos colonos para saldarem a dívida com o governo. Além da produção agrícola, a colônia de Quiririm destacou-se pelo fato de grande parte dos colonos terem se dedicado à produção de tijolos, que eram consumidos em Taubaté, bem como na própria colônia, onde era utilizado na construção de casas. O núcleo colonial da Boa Vista, na cidade de Jacareí, foi estabelecido em terras da Fazenda Boa Vista, adquirida pelo Governo Geral ao Major Vitoriano Pereira de Barros a 18 de setembro de 1888. Possuía 91 lotes rurais, com uma população de cerca de 455 habitantes. Em seu relatório de 1893, Dupret frisa que a grande maioria dos colonos já estavam com seus lotes quitados e devido a este fato, em pouco tempo esta colônia já poderia ser emancipada, o que de fato ocorreu. Analisaremos agora, de maneira mais aprofundada por tratar-se de um dos objetivos proposto neste trabalho, a colônia de Piaguí, localizada na cidade de Guaratinguetá".

História (131 )– "Far L´America (69)": Início da imigração em Guaratinguetá, Vale do Paraíba

Região cafeeira, o Vale do Paraíba foi outro centro de atração de imigrantes italianos que além de trabalhar nas plantações de café desenvolveram outras atividades. É o que relata Marco Antonio Giffoni Junior no texto "A Imigração Italiana na Cidade de Guaratinguetá (1880 - 1930)”  (Foto Guaratinguetá em 1901).

"Na compra de um lote de terra na Província de São Paulo, o imigrante se obrigava a tratar da conservação dos marcos tão logo recebesse o lote medido e demarcado e, depois disso, teriam um prazo de seis meses para deixarem a terra devidamente roçada e plantada, além de serem obrigado a construir uma casa para servir de habitação permanente de seus ocupantes.

O descumprimento de tais regras poderia acarretar na perda do terreno e de todas as benfeitorias nele realizadas e das parcelas da dívida com a Fazenda Nacional já pagas antes da perda da posse do terreno mas, haviam casos em que tal regra não era aplicada como no caso de enfermidade do proprietário, por exemplo. Somente eram dispensados da obrigação de morada e cultura efetiva os lotes de menor superfície, nos distritos urbanos, concedidos para qualquer fim de reconhecida utilidade, devendo ser aproveitados convenientemente no espaço de dois anos. Os primeiros núcleos coloniais agrícolas de São Paulo eram divididos em dois tipos: oficiais e particulares. Localizavam-se em diversas regiões do território paulista e, na região do Vale do Paraíba, o processo não foi diferente pois, existia um grande número de colônias, tanto particulares como oficiais, localizadas em cidades como Pindamonhangaba, Taubaté, Lorena, Paraibuna, Santa Isabel, Ubatuba, São Sebastião e outras mais. Atualmente, muitas informações à respeito de algumas dessas colônias se perderam, a maioria delas jamais fora estudada”

“Com a introdução do imigrante e a abolição da escravatura, começou a se desenvolver em Guaratinguetá o trabalho remunerado. Os imigrantes contribuíram muito com o desenvolvimento do município, sua colaboração consistiu na introdução de novas técnicas de trabalho oriundas das próprias condições em que viviam em seus países de origem. O número de imigrantes estrangeiros na cidade aumentou consideravelmente a partir de 1892, com o início das atividades da colônia do Piagui . Nessa ocasião, a cidade recebeu imigrantes das mais variadas etnias, que tiveram um papel de destaque na vida comunitária da cidade, exercendo sua influência tanto no meio urbano como no meio rural e, o imigrante italiano, nosso objeto de estudo, também participou deste processo. É praticamente impossível precisar quando teria vindo o primeiro imigrante italiano para Guaratinguetá, as fontes consultadas mostram que, antes de 1892, ano da fundação da Colônia do Piaguí, já havia a presença de italianos na cidade.

Esses imigrantes, em sua maioria financiaram a viagem para o Brasil por conta própria, o que lhes concedeu maior independência. Desses imigrantes, destacamos alguns nomes como Augusto Lucchesi, que começou como mascate e depois tornou-se proprietário de loja; Thomas Rocco, que montou uma relojoaria e posteriormente uma loja de artigos finos que por sinal existe até os dias atuais sob a direção de seus descendentes. Além desses dois nomes, destacamos também os irmãos Barone (alfaiates), Pascoale Panunzio (sapateiro), Rafael Bisseglia (padaria) e Felix Cioffi (médico)”.

História (130 ): Imigrantes e o Hospital Umberto I

 A assistência médico-hospitalar ao imigrante italiano tem no Hopsital Umberto I, em São paulo, um importante marco cuja criação é assim descrita por Maria do Rosário R. Salles e Luiz A. de Castro Santos no trabalho Imigração e médicos italianos em São Paulo na Primeira República

"A Sociedade Italiana de Beneficência se constituiu pouco antes do fim da Monarquia, num momento em que São Paulo contava com pouco mais de 25 mil habitantes e a comunidade italiana era ainda reduzida, com comerciantes e artesãos na sua quase totalidade. Uma aspiração da Sociedade desde o início foi fundar um hospital, projeto difícil de se realizar, uma vez que requeria recursos de que os sócios não dispunham. Dessa forma, primeiro abriu-se uma enfermaria no bairro do Bexiga, cuja população, no começo do século, era quase exclusivamente italiana. Em 1901, a criação do Fundo de Emigração pelo governo italiano proporcionou uma inesperada e oportuna ajuda financeira de 350 contos de réis, acrescida de uma subvenção a ser obtida do governo brasileiro, em função de um acordo firmado em novembro de 1896 entre os dois países, que previa a ajuda a iniciativas que visassem à melhoria das condições de assistência ao imigrante (Pisani, 1937). A Sociedade Italiana de Beneficência em São Paulo pôde inaugurar seu hospital em 1.º de janeiro de 1905, com um forte apoio, inclusive financeiro, da comunidade.

O fato, entretanto, do hospital ter sido criado com o intuito de atender aos imigrantes, sem restrições de 'raça, cor ou credo' (Lammoglia, 1954), criou desde logo dificuldades financeiras e administrativas para sua manutenção, em grande parte resultantes do crescimento do número de indigentes e pacientes de baixa renda, atendidos gratuitamente. Desta forma, com sucessivas contribuições pessoais e subscrições coletivas de italianos, dotações e subsídios do governo italiano, e também com o decisivo apoio financeiro do Conde Francisco Matarazzo18, funda-se uma casa de saúde anexa ao hospital, a Casa de Saúde Francisco Matarazzo, onde deviam funcionar as clínicas e serem atendidos pacientes particulares, cuja renda serviria para subvencionar o atendimento gratuito do hospital.

A Casa de Saúde seria o primeiro de uma série de empreendimentos, quase todos patrocinados pelo Conde ou pela família, todos favorecendo o hospital, a partir da renda gerada pelo atendimento à clientela pagante. Essa era a expectativa do Conde Matarazzo, anunciada no discurso de inauguração da Casa de Saúde, em 1917 (Lammoglia, 1954). A fundação do Hospital Umberto I em São Paulo, significou, por um lado, a possibilidade de incorporação de um número importante de médicos italianos e o incremento da imigração médica e, por outro, a alavanca para o seu desenvolvimento posterior como grupo e a base da constituição de sua visibilidade'

Italiani – Pietro Mari Bardi e as obras de artistas italianos no MASP (3)

Outra obra renascentista que Pietro Maria Bardi incorporou ao acervo do Museu de Artes de São Paulo foi a tela Ressurreição de Cristo do célebre pintor Raffaello Sanzio (Rafael). Trata-se de óleo sobre madeira medindo 52cm x 44 cm, executado entre 1449 e 1552. Foi doada ao Museu por Francisco Matarazzo Sobrinho e outras personalidades da elite paulistana. O Catálogo do MASP assim descreve Raffaello:

“Filho de Giovanni Santi (Sanzio é a sua forma latinizada), modesto pintor da corte de Urbino, é possível que sua iniciação artística tenha transcorrido sob a supervisão paterna. Contrariamente à regra, já aos 17 anos Rafael é precocemente tratado como magister (mestre) no contrato para um retábulo destinado à Citta di Castello ( S. Nicola da Tolentino, 1500 ), atualmente reduzido a quatro fragmentos. Segundo Camesasca, ele pôde neste momento já ter pintado a Ressurreição do Masp.

Nesta época, Rafael encontra-se associado ao pintor Evangelista da Pian di Meleto, prática que se verifica também com Perugino (Pietro Vanucci) e Pinturicchio (Bernardino de Betto), dentre outros. Até 1504, data em que o jovem artista transfere-se para Florença (1504-1508), sua produção gravita entre Urbino, Città di Castello e Siena. Segundo Vasari:"o Papa Pio II encomendara a Pinturicchio a decoração da Biblioteca do Duomo de Siena. Amigo e conhecedor de sua excelência como desenhista, Pinturicchio levou-o a Siena, onde Rafael fez para ele desenhos e cartões para aquela obra. Verifica-se então um breve colóquio com o decorativismo pictórico de Pinturicchio, já assinalado por Roberto Longhi (1976) acerca da Ressurreição do Masp.

Também Perugino seria determinante na configuração da poética juvenil de Rafael, o que não escapa a Vasari (1568), para quem a formação úmbria do pintor é assaz patente: 'estudando Rafael a maneira de Perugino, imitou-a tão precisamente e em tantas coisas, que não se reconheciam seus retratos dos de seu mestre, e, com segurança, não se dicerniam suas realizações das de Perugina'. Cavalcaselle (1884) observa que, no final do século, as obras de Perugino adquirem mais sentimento, candura e expressão, e seu desenho, não perdendo em força, possui mais graça.

Essas qualidades marcariam o início de um processo longo e quase imperceptível, no qual se revela a presença de Rafael juvenil no ateliê de Perugino. Longhi (1976) procura discernir a participação pontual de Rafael em obras de Perugino. Constata a mão do jovem artista na Natividade da Virgem (predella de um retábulo encomendado a Perugino para a igreja de Santa Maria Nuova, Fano), uma "quase emulsão poética com o punho vacilante de Perugino".

Finalmente, após uma decisiva estada em Florença, Rafael transfere-se em 1508 para a corte de Júlio II, onde é encarregado da realização de um dos dois maiores ciclos picturais de então, a decoração dos apartamentos papais no Vaticano (1508-1520), contemporânea à redecoração da Capela Sistina, confiada a Michelangelo (1508-1512). Neste momento de maturidade, consolida-se a separação de sua primeira formação úmbria, iniciada no contato com Andrea Verrocchio, Luca della Robbia, Signorelli, Filippo Lippi e Leonardo da Vinci, durante sua estada florentina e aprofundada durante sua estada romana (1508-1520) sob o impacto dos afrescos de Michelangelo”.

sexta-feira, 26 de março de 2010

História (129 ) - Imigração e médicos italianos (2 )

De acordo com a pesquisadora Maria do Rosário Rolfsen Salles, autora do trabalho Médicos italianos em São Paulo - 1890 a 1930 embora existam registros italianos atuando na Medicina no Brasil antes do período da imigração em massa, foi somente a partir do final da década de 1880. 
 
"As origens segundo o local de nascimento indicam que uma pequena parte dos médicos era proveniente da região Norte da Itália (8,5%) - do Vêneto, do Piemonte, da Lombardia e da Emília Romana -, sendo a maioria proveniente da Itália Meridional (34%) - sobretudo das regiões da Campânia, seguida pela Calábria, Sicília e Basilicata - e uma porcentagem de 18,4% das regiões da Itália Central - Lácio, Toscana, Úmbria e Marcas. A partir do começo do século, há um aumento de Meridionais, acompanhando a tendência geral dos imigrantes italianos, conforme análise realizada por Alvim (1986).

Não há, entretanto, uma coincidência absoluta entre o processo mais geral da imigração italiana e a imigração dos profissionais médicos no que se refere às origens, em virtude do expessivo número daqueles que vinham convidados por instituições brasileiras e que eram provenientes das universidades de Roma ou do Centro-Norte italiano. A origem segundo as universidades revela uma distribuição semelhante à procedência segundo o lugar de nascimento. O maior número, em torno de 35%, provém da Universidade de Nápoles (região da Campânia), seguida pelas Universidades de Roma (Lácio), Turim (Lombardia), Bolonha (Emilia Romana), Pisa, Módena, Siena Toscana ), e Palermo (Sicília), em proporções menores".

História (128 ) - Imigração e médicos italianos (1 )

O fenômeno da imigração italiana no Brasil teve reflexos em diversos setores da sociedade inclusive no chamado campo das profissões liberais. Um interessante relato de situações desse tipo vem do trabalho de Médicos italianos em São Paulo - 1890 a 1930  de autoria de Maria do Rosário Rolfsen Salles.   

“Os médicos italianos que se dirigiram para o Estado São Paulo constituem um grupo diferenciado em relação ao conjunto dos imigrantes italianos . Suas origens sociais, evidenciadas pela profissão do pai ou pela posição social que a família ocupava na Itália, seus títulos, sua formação, suas relações indicam um conjunto de famílias bastante distintas socialmente: famílias tradicionais de profissionais liberais, médicos, juristas, altos funcionários, advogados etc.; famílias de origens aristocratas, inscritas, algumas, no elenco oficial de condes e barões; famílias burguesas e, em alguns casos, de proprietários rurais, em geral, pequenos agricultores em dificuldade”.

“A opção pela emigração deveu-se, em larga medida, a uma série de circunstâncias que diziam respeito às peculiariadades das famílias de origem dos médicos e à sua estruturação. Por outro lado, deveu-se ao lugar que a própria Medicina italiana ocupava no rol das demais profissões. Com as mudanças introduzidas pela universalização das relações capitalistas na sociedade italiana, decorrente do processo tardio de unificação política do Estado, as famílias já não representavam um caminho seguro e certo de uma colocação definitiva na carreira. Além disso, a carreira militar, a carreira jurídica e outras eram mais viáveis e desfrutavam de maior prestígio do que a Medicina. À competição por postos de trabalho somava-se, no caso da Medicina, uma competição interna inserida numa rígida hierarquia profissional”.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Italiani: Os missionários scalabrinianos (4)

Na obra missionária do padre Giuseppe (José) Marchetti religiosas italianas da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo tiveram papel fundamental. O site da  Congregação conta como tudo começou.


"Em 1895, Pe. José Marchetti, missionário scalabriniano, sentindo a urgência do ramo feminino para atender os órfãos migrantes no Orfanato Cristóvão Colombo por ele fundado em São Paulo, Brasil, preparou, reuniu e apresentou a Scalabrini as quatro primeiras Irmãs: Carolina Marchetti, Assunta Marchetti, Ângela Larini e Maria Franceschini, que as admitiu aos votos religiosos e as enviou à missão. Durante a travessia as quatro pioneiras, migrantes com os migrantes, dedicaram as primícias de sua vocação, dando catequese a 86 crianças que, ao desembarcarem em terras brasileiras, receberam a primeira eucaristia das mãos de padre José Marchetti, co-fundador e capelão de bordo.

O Orfanato Cristóvão Colombo, SP, sediou a primeira comunidade de Irmãs MSCS e os órfãos ali acolhidos foram os primeiros destinatários de sua missão. Em diversas circunstâncias o Orfanato do Ipiranga mereceu de João Batista Scalabrini uma especial menção como a que consta em relatório enviado à Propaganda FIDE, datado de 10 de agosto de 1900: 'A bordo do navio em que viajava um Missionário, Pe. José Marchetti (ex-professor no Seminário de Lucca), morria uma jovem mãe, deixando um orfãozinho bebê e o esposo sozinho, desesperado.

O Missionário para acalmar aquele desolado que ameaçava jogar-se ao mar, prometeu-lhe cuidar da criança, e como prometeu fez. Chegou ao Rio de Janeiro, levando no colo aquela inocente criaturinha e apresentou-se com ela ao exímio conde Pio de Savoia, no momento cônsul geral daquela cidade. Ele não pôde dar ao jovem Missionário mais que palavras de encorajamento, mas tanto bastou para que este, batendo de porta em porta, chegasse por fim a deixar o pobre orfãozinho com o porteiro de uma casa religiosa. Daquele momento em diante a idéia de fundar em São Paulo (onde tinha chegado) um orfanato para os filhos dos italianos não lhe saía da cabeça e, com grandes sacrifícios, conseguiu fundá-lo de fato. Agora tem seis anos de vida, com 200 orfãozinhos e um mártir que reza por eles no céu, porque as grandes fadigas que suportou, custaram a vida ao piedoso e zeloso Missionário. Descanse em paz a sua alma, já pronta para o céu aos trinta anos!'

Com o desdobramento do Orfanato do Ipiranga, a sessão feminina do mesmo estabeleceu-se em Vila Prudente onde, em 1907, as Irmãs sob a liderança de Madre Assunta Marchetti puderam fixar a sede geral da Congregação e crescer na identidade MSCS. A partir de 1915 a família religiosa expandiu-se no Rio Grande do Sul, em áreas de colonização italiana. O início da Congregação foi acompanhado de sucessivas dificuldades, mas foi um período rico de frutos de santidade e de afirmação da identidade congregacional graças à fidelidade carismática da co-fundadora Madre Assunta Marchetti. O decreto de Pio XI, de 13 de janeiro de 1934, aprovando ad experimentum, por sete anos, as novas constituições, legitimou a Congregação como instituto religioso de direito pontifício. Seguiu-se uma época de florescimento de vocações e nova expansão das obras da Congregação.

Em 1936 ela atingiu o local de partida das quatro pioneiras, estabelecendo-se em Piacenza, Itália. Em 1941 alcançou os Estados Unidos. A re-interpretação do carisma feita por ocasião do Capítulo Especial, 1969-1971, sobretudo a opção pelo serviço pastoral junto a migrantes de todas as nacionalidades favoreceu maior internacionalização da Congregação MSCS nas Américas, na Europa, Ásia e África. Hoje a Congregação é constituída de seis províncias: Nossa Senhora Aparecida, Imaculada Conceição, São José, Nossa Senhora de Fátima, Cristo Rei e Maria, Mãe dos Migrantes.

A sede geral esteve no Brasil até 1960, ano em que foi transferida de Vila Prudente para Itália, primeiro em Acilia, periferia de Roma e desde 1982 em Roma - centro, onde agora se encontra. A Congregação desenvolve sua missão através da catequese, educação cristã, pastoral da saúde, pastoral social e das migrações, atuando em escolas, hospitais, orfanatos, presídios, centros de menores, asilos de anciãos, casas de formação, comunidades étnico-culturais, paróquias, dioceses, conferências episcopais, organismos internacionais, organizações civis, centros de promoção e de serviços de escuta, acolhida e centros de estudos e de documentação.

Em resposta aos desafios da mobilidade humana e fiel à missão que a Igreja lhe confiou, a Congregação marca presença pelo testemunho de vida consagrada no serviço evangélico-missionário aos irmãos em mobilidade e, de preferência os pobres e necessitados. O espírito que a anima é aquele da comunhão universal porque deseja visibilizar a vocação dos membros de reconhecer e amar Cristo na pessoa do migrante.

Italiani: Os missionários scalabrinianos (3)

Na missão dos religiosos scalabrinianos em terras brasileiras destaca-se o trabalho do padre Giuseppe (José) Marchetti. Em 1895, em São Paulo, ele fundaria o Orfanto Cristóvão Colombo para acolher filhos e filhos órfãos de imigrantes. O site a ele dedicado relata a obra deste religioso italiano.

“Padre José Marchetti nasceu aos 3 de outubro de 1869, em Lombrici, distrito de Camaiore, na província de Lucca, Itália. Contam os familiares que às vésperas de partir para a Argentina um tio, o franciscano Padre Jerônimo Marchetti, abençoou o recém-nascido, pedindo a Deus que o fizesse um bom sacerdote missionário. No dia 3 de abril de 1892 foi ordenado sacerdote e celebrou sua primeira missa solene na cidade de Capezzano. Entre os convidados, achava-se o velho missionário franciscano. Durante o banquete aquele veterano das missões na América, polarizou a atenção de todos com seus contos missionários, mas especialmente a do jovem sacerdote.

Por fim, Padre José Marchetti não pôde mais manter secreto o seu propósito e revelou que também ele, há muito tempo, sentia-se chamado à mesma missão. De caráter reto e vontade férrea, depois de ter posto a mão no arado, não mais olhou para trás e se fez missionário e mártir para os irmãos mais pobres: órfãos e imigrantes italianos no Brasil.

No final do século passado, os problemas sociais eram muito graves na Itália. A realidade era dramática. A miséria atingia especialmente os camponeses. Por isso, milhões deles abandonaram a Itália em busca de melhores condições de vida. Padre Marchetti viu partir metade de seus paroquianos, decididos a emigrar para o Brasil. Ele mesmo os acompanhou até o Porto de Gênova para ajudá-los no momento da partida, impedindo-os de caírem nas mãos de agentes inescrupulosos, como acontecia freqüentemente. Esse primeiro contato com a dura realidade, somado a uma vocação missionária já revelada e a conferência sobre a emigração, proferida por Dom João Batista Scalabrini, em Lucca, em 1892, interpelaram fortemente o coração do Padre Marchetti, motivando-o a dar uma resposta generosa de doação total, em favor dos imigrantes italianos no Brasil.

Como missionário externo da Congregação dos Missionários de São Carlos, comprometeu-se a acompanhar os emigrantes durante a travessia, como capelão de bordo nos navios da emigração. Em outubro de 1894, realizou sua primeira viagem ao Brasil. O apostolado com os emigrantes italianos nos navios e o contato com a situação dos emigrantes alargou sua visão sobre o problema migratório e aumentou-lhe o desejo de encontrar soluções.

Um episódio ocorrido durante a segunda viagem ao Brasil, em janeiro de 1895, teve um papel importante nessa busca. Esta viagem definiu o futuro do Padre Marchetti. Tinha ele, então, 25 anos. Durante a viagem, morreu uma jovem senhora deixando o marido com uma criança de colo. O homem estava tão desesperado que ameaçava jogar-se ao mar. Para tranqüilizá-lo, Padre Marchetti prometeu cuidar da criança. Naquele lance de amor decidiu sua vida e sua morte. Tornou-se para sempre o missionário dos emigrantes e o pai de seus órfãos. No Rio de Janeiro, Padre Marchetti desceu do navio, levando no colo a criancinha. Bateu em diversas portas para encontrar uma pessoa disposta a acolher o órfão. Daquele momento em diante, Padre Marchetti teve uma só idéia: construir, em São Paulo, um orfanato para os filhos órfãos dos imigrantes italianos e dos antigos escravos, dispersos pelas cidades e fazendas. Esta idéia, nutrida pro sua grande na Providência Divina e no desejo de fazer o bem, em pouco tempo, tornou-se realidade. Surgiu, assim, o Orfanato Cristóvão Colombo, no alto da Colina do Ipiranga, na cidade de São Paulo.

Chegando em São Paulo, Padre Marchetti encontrou-se com o benemérito Conde José Vicente de Azevedo, do qual obteve, em doação, um vasto terreno na Colina do Ipiranga. Os trabalhos de construção do Orfanato foram iniciados em 15 de fevereiro de 1895, em ritmo acelerado. No prazo de 9 meses, aos 8 de dezembro do mesmo ano, o novo orfanato, denominado Cristóvão Colombo, abriu suas portas aos primeiros 80 órfãos. A fé, a esperança e a caridade, irremovíveis, guiaram o Padre Marchetti a uma vida religiosa-missinária-apostólica tão intensa que frutificou em grandes e inexplicáveis realizações no Brasil, no breve espaço de 22 meses. Padre José Marchetti morreu em conceito de santidade a 14 de dezembro de 1896. Selou sua obra com o martírio.

No mesmo dia, Padre Natal Pigato, informando a Dom João Batista Scalabrini sobre a Morte de Padre José Marchetti, escreveu: “Morreu um santo! Estava pronto para o céu. Deus o quis ao seu eterno repouso. Assim tão cansado, consumido pelas fadigas, devorado pelos contínuos sacrifícios por amor aos seus orfãozinhos, pelos quais não parou nunca, nem de dia, nem de noite, para encontrar par ele o pão de cada dia. Terminou a sua vida, deixando-nos nas mãos da Providência”. Padre Marchetti, além de gestos heróicos, realizou, sobretudo, os pequenos atos de cada dia com simplicidade, humildade e caridade. A vida dele foi como um mosaico: que se compunha de tantos pequenos fragmentos de cotidiano.

Ele acreditava nas verdades da fé e agia como acreditava, falava como sentia e se comportava como falava. Assim, ensinou aos cristãos o modo mais simples para se chegar a união com Deus e a todos indicou a coerência entre o pensamento e a ação. Padre José Marchetti viveu pouco mais de 27 anos. Sua vida foi como a passagem de uma estrela cadente, porém com um rastro e com um testemunho que nos ilumina ainda hoje".

quarta-feira, 24 de março de 2010

Italiani – Pietro Mari Bardi e as obras de artistas italianos no MASP (2)

No acervo construído por Pietro Maria Bardi, o Museu de Arte de São Paulo traz a obra A Virgem Amamentando o Menino e São João Batista Criança em Adoração do artista lombardo Gianpietrino (chamado Gian Pietro Rizzi). Trata-se de um óleo sobre tela, 86 X 88 cm.(1500-1520).

"A obra faz emergir com habilidade de um fundo escuro personagens saturadas de sfumato leonardiano. Detectam-se com não menor evidência na invenção cênica componentes típicos das Virgens de Leonardo. O Menino Jesus, por exemplo, está em posição invertida em relação ao Menino da assim chamada Madonna Litta, do Hermitage, datada em geral de c. 1490, enquanto a paisagem fantástica entrevista pela janela, com suas montanhas e atmosfera extraterrenas, é de um leonardismo ortodoxo.

De modo geral, Giampietrino vale-se de motivos bem estabelecidos na tradição quatrocentista: o piso ladrilhado que escande com metro preciso a sucessão em profundidade dos planos, a janela que introduz a paisagem em contraponto ao cubo espacial, e o cortinado, com sua simbologia cênica diversa. A coluna decorada com folhas de parreira é supostamente alusiva ao mistério da Eucaristia e, como a cruz abraçada por São João Batista, prenuncia misticamente o sacrifício.

O Artista 

Contemporâneo ou ligeiramente mais jovem que seus compatriotas Bergognone (ativo entre 1481 e 1523), Giovanni Boltraffio (1467-1516), Andrea Solario (1468/1470-1524), Marco d’Oggiono (c.1475-1530?), Cesare da Sesto (1477-1523) e Bernardino Luini (1480/1485-1532), Giampietrino pertence a toda uma geração de pintores lombardos profundamente influenciados pelas longas estadas de Leonardo da Vinci em Milão. A primeira menção ao artista é feita pelo próprio Leonardo que designa um certo Gian Pietro como seu discípulo, no manuscrito denominado Codice Atlantico (Richter 1883), a se datar, segundo Pedretti (1979), dos anos de 1497-1500.

Uma outra menção não surge antes do Tratatto dell’Arte della Pittura de Lomazzo (1584), que recorda um Pietro Rizzo Milanese. O primeiro núcleo de obras relacionáveis à atividade desse pouco conhecido discípulo direto de Leonardo remonta ao inventário da Galeria de Ambrogio Mazenta, do século XVII, no âmbito do qual apenas uma obra, o retábulo da igreja de San Marino, em Pavia, traz uma data segura: 1521.

Diversas obras de tema sacro- sobretudo representações da Sagrada Família, de Sacras Conversações, da Madalena e da Paixão de Cristo (Marani 1987, pp. 199-213)- distribuem-se em igrejas e museus lombardos, enquanto não menos recorrentes são certos temas de cunho mitológico e profano, tais como a Cleópatra do Louvre e a de Oberlin, inspiradas na Leda de Leonardo (Moro 1987, p. 727 ). A cópia da Última Ceia, conservada na Royal Academy de Londres, recentemente restituída a nosso pintor (Shell, Brown, Brambilla Barcillon 1988 ), situa-o entre os pintores lombardos de mais inspirada e estrita observância leonardiana". (Fonte: Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand).

Italiani: Os missionários scalabrinianos (2)

A dedicação de Giovanni Battista Scalabrini a uma obra voltada para os seus irmãos italianos que deixavam a terra natal rumo ao estrangeiro é assim descrita no site Scalabrini .
"L ´emozione creatrice per la sua opera in favore dei migranti egli scrive che l'ebbe (lo Spirito spira dove vuole!) passando un giorno per la stazione di Milano rigurgitante di emigranti, 'figli della miseria e del lavoro' . Ma già fin dalla sua prima visita pastorale egli aveva raccolto dati statistici sull'emigrazione dal suo Appennino che gli dicevano che quasi il 12% dei suoi fedeli emigrava, in Europa e in America, per cui il pastore sollecito si era posto l'interrogativo: "Che cosa fare?".

L'emigrazione allora era una necessità estrema (e non il tentativo di migliorare la propria posizione sociale), ed emigrare è sempre stato un dramma sotto ogni aspetto: umano, economico, culturale, e quindi (conclusione scalabriniana nel "Memoriale"!) religioso. Anche alla stazione di Milano egli si era chiesto: 'Quanti, pur trovando il pane del corpo, verranno a mancare di quello dell'anima, non meno del primo necessario, e smarriranno, in una vita tutta materiale, la fede dei loro padri?". E dalle lettere dei suoi fedeli emigrati sulle rive dell'Orinoco c'era la straziante invocazione: "Ci mandi un prete, perché qui si vive e si muore come le bestie'".

Prima di vedere che cosa ha operato, come risposta all'interrogativo categorico: "Che cosa fare?", resta ancora da dire che Scalabrini, come è proprio dei santi e dei geni, intuì in quel fenomeno sociale che coinvolgeva tutti i paesi cattolici d'Europa, e con così enorme portata (dal 1860 al 1970 oltre 25 milioni di Italiani emigrarono!), un "segno dei tempi", cioè qualcosa con cui la Provvidenza divina voleva scrivere la sua storia di salvezza.

L'ingiustizia umana produce l'emigrazione, ma il male dell'emigrazione ha anche una sua provvidenziale ragion d'essere nel piano di Dio: evangelizzare, mediante i cattolici europei, il "Nuovo Mondo", che diviene "la Terra Promessa alla Chiesa Cattolica" europea, cui si misurava lo spazio in Europa. E' interessante notare che in quest'ordine di idee non giunse subito, ma con lenta lettura delle piste di Dio. Infatti, nel suo primo Sinodo (1878) l'emigrazione viene sconsigliata e per così dire esorcizzata. E ancora: non dimentichiamo che l'emigrazione, anche quella che è un conto di numeri bassi per la fede, lui l'aveva in famiglia, con due fratelli 'persi' così in Argentina. Al "'cosa fare?'

Scalabrini rispose col fondare una Congregazione religiosa di Missionari (1887) e Missionarie (1895), che seguissero i migranti italiani nelle Americhe, e impiantassero nel Nuovo Mondo la Chiesa degli emigrati italiani, e analogamente quella degli emigrati polacchi, tedeschi, ecc.: perché, ed ecco l'intuizione geniale scalabriniana, fatta propria dalla Chiesa: senza cultura propria (lingua, storia, sacerdoti, santi, religiosità popolare, feste, ecc.) a lungo andare non vive più neanche la fede. In questo contesto va inteso il motto scalabriniano di ' Religione e Patria ' "

terça-feira, 23 de março de 2010

Italiani: Os missionários scalabrinianos (1)

O fenômeno da imigração italiana no século XIX despertou a atenção de Giovanni Battista Scalabrini (1839-1905), bispo de Piacenza e hoje beato da Igreja Católica. Em 1887, ele fundaria a “Congregazione dei Missionari di San Carlo” destinada a amparar o imigrante tanto na partida quanto na viagem e, sobretudo no país escolhido como terra para recomeçar a vida. O site Scalabrini relata como foi fundada a Congregazione dei Missionari di San Carlo” e quantos foram os religiosos que partiram para o Brasil .

“Il 28 novembre 1887 rappresenta la data di fondazione della Congregazione dei Missionari di San Carlo. Appena ricevuto il Breve Libenter Agnovimus con cui il papa Leone XIII approvava il progetto presentato dal Vescovo di Piacenza, Mons. Scalabrini diede inizio alla Congregazione, e volle che "gettasse le sue prime radici presso la tomba dell'inclito Martire S. Antonino, Patrono della Città e Diocesi di Piacenza' (P. Giuseppe Molinari, 'Cronaca dell'Istituto Apostolico dei Missionari per le Colonie italiane all'estero specialmente in America"). A mezzogiorno, nella Basilica di S. Antonino, a porte chiuse, i primi missionari D. Giuseppe Molinari e D. Domenico Mantese insieme al canonico Mons. Domenico Costa, si presentano a Mons . Scalabrini e pronunciano l'impegno solenne di dedicarsi alla nuova missione e di osservare il 'regolamento provvisorio'.

La prima professione religiosa propriamente detta fu pronunciata dai primi missionari il 12 luglio 1888 nella basilica di S. Antonino, secondo il regolamento consegnato da Mons. Scalabrini, e partirono per gli Stati Uniti e per il Brasile. Ai primi due missionari, P. Giuseppe Molinari (nella foto: a sinistra, in piedi) e P. Domenico Mantese, si unirono presto altri sacerdoti, animati dallo spirito missionario e disponibili per la missione tra gli emigranti: P. Marcellino Moroni, P. Giuseppe Venditti, P. Remigio Pezzotti, P. Amos Vincenzo Astorri,P. Felice Morelli. Dopo alcuni mesi di formazione trascorsi a Piacenza sotto la guida del P. Bartolomeo Rolleri, ricevettero il crocifisso dalle mani di Mons. G.B. Scalabrini il 12 luglio 1888, nella basilica di S. Antonino.
Nel famoso pronao della basilica, detto 'il Paradiso' , il fondatore abbracciò i dieci missionari, che salirono sulle carrozze prestate a gara dalle nobili famiglie piacentine e si diressero subito alla stazione ferroviaria dalla quale partirono per Genova i sette destinati al Brasile e per Le Havre i tre diretti a New York"

História (127 ) - Fascismo e Legislação Trabalhista no Brasil (5)

A questão da influência da Carta Del Lavoro do regime fascista de Benito Musollini sobre a legislação trabalhista brasileira gera polêmica, como mostra o trabalho de
Camile Balbinot, especialista em Direito do Trabalho pela PUC/RS, servidora do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região. O texto CLT. Fundamentos ideológico-políticos: fascista ou liberal-democrática? diz que:
"(..) é o eminente jurista Arnaldo Sussekind, membro da comissão que elaborou a CLT, ex-Ministro de Estado do Trabalho e ex-Ministro do Tribunal Superior do Trabalho, quem nos fornece uma das leituras mais lúcidas quanto às origens da CLT. [19] Sussekind revela que as principais fontes materiais da CLT foram os pareceres de Oliveira Vianna e de Oscar Saraiva, o 1º Congresso Brasileiro de Direito Social, as Convenções e Recomendações da OIT e a Encíclica Papal Rerum Novarum. Diz que na elaboração da CLT teriam participado, ainda, juristas como Evaristo de Moraes, Oliveira Vianna e Oscar Saraiva. Durante o Primeiro Congresso de Direito Social, em comemoração aos 50 anos da Rerum Novarum, em maio de 1941, Sussekind conta que apresentou uma tese, aprovada – 'A Fraude à Lei no Contrato de Trabalho', – e que inspirou, na comissão de elaboração da CLT, a redação do artigo 9º, o qual combate a fraude e a simulação e configura a consagração do princípio da primazia da realidade.

Outro ponto importante esclarecido por Sussekind é o fato de que, quando Getúlio Vargas, após o movimento conhecido como Intentona Comunista, em 1935, passou a combater os comunistas, estes passaram a criticar aquilo que era o principal feito de Getúlio - a legislação do trabalho -, afirmando que a CLT seria cópia da Carta del Lavoro, de inspiração fascista. As críticas, então, começaram a partir de todos os lados, por questões unicamente políticas. Contudo, atualmente, seriam os liberais mais conservadores os principais críticos da CLT ao alegarem que a magistratura do trabalho no Brasil tem poder normativo tal como a 'magistratura del lavoro', prevista na Carta del Lavoro. Nesse ponto, Sussekind esclarece que o Poder Normativo não foi criação do fascismo italiano.

O instituto, na verdade, nasceu em 1904, na Nova Zelândia; depois, foi implantado na Austrália, Turquia, e no México, em 1917. De resto, diz o jurista, que a CLT não fala em Poder Normativo, mas em "possibilidade de criar normas e condições de trabalho, tal como um poder arbitral". O poder normativo nada mais é do que uma forma de arbitragem, como refere Américo Plá Rodrigues, lembra. Sussekind refere ainda que o outro foco de crítica dos neoliberais é a compulsoriedade da unicidade sindical, a qual está prevista também na Carta del Lavoro. O jurista rebate a crítica lembrando novamente que este instituto não é criação italiana, sendo que, já em 1917, Lenin havia instituído a unicidade sindical na extinta União Soviética. E, muito antes dele, havia sido defendida por vários juristas, como Max Leroix, em 1913 e Georges Scelle. Desta forma, entende que é falacioso afirmar que a CLT é uma cópia da Carta del Lavoro, tendo em vista que a CLT tem 922 artigos e a Carta possui apenas 11 princípios trabalhistas, a maioria deles de pouca aplicabilidade imediata.

No que pertine ao imposto sindical, é Ângela de Castro Gomes quem explica suas origens. Segundo a historiadora, este visava adotar os sindicatos de recursos capazes de fazê-los arcar com suas responsabilidades entre as massas trabalhadoras.

Ou seja, transformar o sindicato em um real dispensador de benefícios e, com isso, torná-lo um pólo de atração para os trabalhadores. [20] Nesse sentido, o aumento do número de associados, o qual era o principal objetivo, acabou tendo um efeito inverso: Uma vez que os sindicatos recebiam verbas independentemente da quantidade de filiados que reunissem, tornava-se desnecessário e até pouco interessante aumentar esse número. Esse efeito perverso foi-se afirmando e crescendo com o passar do tempo, tanto por implicações econômicas stricto sensu, quanto políticas, pois se tratava de reduzir as margens de competição pelo controle da vida sindical.

Mas nos anos 40 estes desdobramentos ainda não eram tão óbvios, embora já se anunciasse com certa clareza. Gomes explica que o Ministério do Trabalho, já na década de 40, queria sindicatos e líderes convencidos das qualidades do sistema corporativista, o que não significava necessariamente submissão total. A vivificação do sindicalismo corporativista deveria passar por um esforço eminentemente pedagógico e não fundamentalmente repressivo.

Nesse período, o governo estava se empenhando em difundir a idéia da sindicalização, sendo que, só no final do Estado Novo, ou seja, passado o período de autoritarismo, começou a se desenvolver a idéia do corporativismo brasileiro. A Justiça do Trabalho, o imposto sindical e a CLT já haviam sido criados, não havendo falar que tais institutos teriam sido idealizados sob a inspiração totalitária do Estado Novo. Conforme Gomes, o chamado sindicalismo corporativista não foi implementado durante os anos de autoritarismo do Estado Novo, mas sim no período de transição do pós-1942, quando a questão da mobilização de apoios sociais tornou-se uma necessidade inadiável ante a própria transformação do regime. A autora conclui que o aspecto político da implementação do corporativismo no Brasil buscou, na verdade, uma saída do autoritarismo. O objetivo do governo, nos anos pós-1942, era mobilizar e preparar lideranças e não mais exercer a repressão. Nessa época já se falava na necessidade de desvincular o sindicalismo corporativista de outros regimes totalitários: Nosso regime diferenciava-se dos demais corporativismos (alemão, italiano, austríaco e até português e espanhol), já que adotava uma estrutura organizativa eminentemente representativa.

O corporativismo brasileiro consagrava o direito de a própria produção organizar-se através de sindicatos, definidos como órgãos coordenados pelo Estado, no exercício de funções delegadas pelo poder público. Esta dimensão oficial era imprescidível a todo o corporativismo moderno, já que por ela se garantiam as próprias tarefas de representação das corporações profissionais.  Concluímos, mais uma vez, que não é correto associar o corporativismo italiano com o corporativismo brasileiro. Tratam-se de ideologias surgidas em realidades históricas específicas, cada uma ambicionando chegar a um resultado político e econômico diferente".

Italiani – Pietro Mari Bardi e as obras de artistas italianos no MASP (1)

O acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp) garimpado pelas mãos de Pietro Maria Bardi está repleto de obras de artistas italianos. Do pintor veneziano Jacopo Tintoretto, ( 1518-1594 ), o MASP conserva duas obras: Lamentação sobre o Cristo Morto (ou Pietà) e Ecce Homo ou Pilatos Apresenta Cristo à Multidão. Pietà é óleo sobre tela (95cm x 140 cm) doada por Gladstone Jafet. Cristo à Multidão é também óleo sobre tela (109 x 136 cm).

O Grupo Fiat editou o livro Arte Italiana no Masp Arte Italiana no Masp que assim comenta a tela Pietà: “A obra relaciona-se ao mesmo tema pintado por Tintoretto para a decoração de uma luneta, obra conservada hoje na Pinacoteca Brera de Milão, e pode ser datada entre 1560 e 1565. A cena representa o momento do pesar diante do Cristo deposto da cruz, já morto – uma iconografia gerada somente a partir do século XII. Amparando o corpo de Jesus estão a Madona e São João Evangelista, o discípulo mais jovem do Mestre. Aos pés do corpo, Maria Madalena estende seus braços, em um gesto teatral de acolhimento, expandindo-se no espaço, e com isso se contrapondo ao outro grupo, fechado e concentrado no lamento. A paisagem crepuscular integra-se ao clima narrativo, evocando a morte e a melancolia serena do final do dia, ao mesmo tempo em que nos dá um belo exemplo das harmonias cromáticas de Tintoretto, em estreito diálogo com as graduações da luz".

Em relação ao quadro Pilatos Apresenta Cristo à Multidão, o livro ressalta que   "a fonte para a cena encontra-se nos Evangelhos de Mateus, Lucas e sobretudo em João (19, 4). Após ser flagelado e humilhado, Jesus recebe uma coroa de espinhos – representada por Tintoretto em destaque, graças à auréola luminosa que emana da cabeça do salvador – e é entregue a Pilatos, governador romano da Judéia, que o apresenta ao povo dizendo “Eis o Homem” (Ecce Homo).

A multidão enfurecida pede para crucificá-lo, apesar das tentativas de Pilatos para convencê-la do contrário. Tintoretto faz o público se calar: não há turbulência entre as pessoas, que assistem à cena com admiração. No alto da escadaria, o corpo nu de Jesus ensaia um movimento, serpenteando no espaço, como nas formas de Michelangelo. Note-se a alta qualidade das cores, que sugerem texturas variadas aos tecidos, como o amarelo do manto do personagem à direita. O teatro é o grande modelo para a representação de Tintoretto, mantendo assim uma forte relação com os efeitos dramáticos, que o episódio narrado pode gerar nos observadores. A presença do cão, exatamente na metade da escada, citação típica da pintura veneziana, alivia a tensão da cena e preenche o vazio daquele espaço como uma mancha negra circunscrita pelos brancos e cinzas. Obra de juventude do artista pode ser situada entre 1546 e 1547".

segunda-feira, 22 de março de 2010

Italiani - Lina Bo e Pietro Maria Bardi: a idealização do Masp na Avenida Paulista

O edifício que abriga o Museu de Arte de São Paulo  (Masp) foi concebido pela arquiteta Lina Bo Bardi autora de um audacioso projeto arquitetônico marcado pelo enorme vão livre de 74 metros. Quem lembra a história desse projeto é Alexander Gaiotto Miyoshi, autor do trabalho Historiografias do Masp Ele cita depoimento do diretor do Masp e marido de Lina Bo Bardi, Pietro Maria Bardi.

O terreno era da Prefeitura de São Paulo e seu doador, Joaquim Eugênio de Lima, impusera uma exigência: qualquer construção ali realizada deveria manter a vista que se descortinava do centro da cidade. Ficamos sabendo que Cicillo pretendia construir ali a sede do MAM de São Paulo, encomendando o projeto ao arquiteto carioca Affonso Eduardo Reidy, sem considerar porém, a necessidade de manutenção do belvedere, o que causou a recusa de sua proposta, que ocupava todo o espaço.O local era ideal para o MASP. Sabendo da situação do terreno e das condições impostas pelo doador, Lina conversou com Edmundo [Monteiro, diretor dos Diários Associados], informando-lhe os detalhes. Ela realizou um projeto que mantinha a vista exigida para o centro da cidade [...].Edmundo resolveu falar com o prefeito Adhemar de Barros e chegaram a um acordo. Adhemar era candidato à reeleição na prefeitura e combinaram de fazer sua campanha pelos Diários Associados de graça, desde que ele, caso fosse eleito, aprovasse a concessão do terreno para a construção do MASP”.

Alexander Miyoshi lembra que “ainda hoje costuma-se citar a exigência do vão livre como a origem primordial do projeto arquitetônico, lembrando-se apenas eventualmente que o MAM também pleiteou o mesmo terreno à sua sede".

"No entanto, a declaração sobre a troca de favores entre os Diários Associados e o prefeito Adhemar de Barros ajuda a esclarecer sua razão: podemos supor que, na verdade, pouco importava ao prefeito se o belvedere seria mantido livre de colunas ou não. O apoio prometido pelos Diários Associados era o que de fato lhe interessava6, e a cessão do terreno ao MASP certamente não seria impedida por uma cláusula como aquela, mesmo que o projeto não mantivesse o belvedere livre de colunas. O projeto de Lina Bo caiu como uma luva, afastando as tentativas de protesto do MAM, que não teria cumprido a exigência do doador. Hoje, não sabemos até que ponto tal exigência foi determinante ao projeto; mas se recordarmos que, naqueles tempos, a arquitetura e a engenharia no Brasil buscavam destacar-se por obras audaciosas (como é o caso de Brasília), torna-se plausível acreditarmos que a maior justificativa é a própria vontade em se fazer um edifício extraordinário do ponto-de-vista técnico e estrutural, e expressivo sobretudo por esta razão”.

História (126 ) - Fascismo e Legislação Trabalhista no Brasil (4)

Ao comparar a Carta Del Lavoro instituída na Itália durante o governo fascista de Beneito Mussolini, com a legislação trabalhista brasileira na ditadura de Getúlio Vargas, o advogado Cássio Mesquista Barros  lembra que: "A Declaração IV da Carta del Lavoro estabelece: ' No contrato coletivo de trabalho tem a sua expressão concreta a solidariedade entre os vários fatores da produção, mediante a conciliação dos interesses opostos dos empregadores e trabalhadores e a sua subordinação aos superiores interesses da produção.'

No Brasil, o contrato coletivo de trabalho veio a denominar-se convenção coletiva de trabalho. Prevista pelo art. 7º do Decreto nº 19.770, de 19 de março de 1931, sobre sindicalização, foi regulada, pela primeira vez, pelo Decreto nº 21.761, de 23 de agosto de 1932, que atribuía à convenção coletiva eficácia restrita aos associados do sindicato, reservando-se ao Ministério do Trabalho a prerrogativa de estender seus efeitos aos não associados. Foi posteriormente contemplada na Constituição de 1934, na Carta de 1937, na CLT e nos textos constitucionais posteriores.

A convenção coletiva de trabalho está prevista no art. 7º, XXVI, da Constituição de 1988 em vigor e no art. 611 e ss. da CLT. Manter a paz social era função básica do Estado fascista. Para evitar que os conflitos entre empregados e empregadores desembocassem em formas de autodefesa como a greve e o lock-out, o que, segundo concepção da doutrina fascista, prejudica a produção, perturba a ordem pública e infringe o dever social do trabalho, o Estado, síntese superior dos interesses individuais, resolveu atrair a solução dos conflitos individuais e coletivos para um órgão também estatal, dando-lhe uma função normativa além da função judicante: a Magistratura del Lavoro. 'A Magistratura del Lavoro substitui a greve e o lock-out (serrata), que são proibidos”, assegura Barassi. Dispõe a Declaração V da Carta del Lavoro: 'A Justiça do Trabalho é o órgão por meio do qual o Estado intervém para solucionar as controvérsias do trabalho, seja as que concernem ao cumprimento das convenções e outras normas existentes, seja as destinadas à criação de novas condições de trabalho.' Inicialmente contemplada na Constituição Brasileira de 1934, nos mesmos moldes da Magistratura do Trabalho italiana, a Justiça do Trabalho encontrou ambiente propício no Estado Novo. Foi efetivamente instituída no Brasil pela Carta outorgada de 1937 que, no seu art. 139, 1ª alínea, incluiu a Justiça do Trabalho no capítulo concernente à ordem econômica como órgão do Poder Executivo e um setor do Ministério do Trabalho. Dispôs, ainda, que a ela não se aplicaria nenhuma das regras da Justiça Comum, inclusive no tocante à estabilidade dos juízes.

A Justiça do trabalho foi regulamentada pelo Decreto-lei nº 1.237, de maio de 1939, posteriormente incorporado à CLT. Na Exposição de Motivos da Comissão Elaboradora do Projeto de Organização da Justiça do Trabalho, Oliveira Vianna assim justifica a forma de composição paritária dos órgãos da Justiça do Trabalho, por ele denominados de “corporações jurisdicionais do trabalho” e criados nos moldes da Magistratura del Lavoro: os representantes classistas, com a experiência do dia-a-dia que trazem da classe empresarial ou dos trabalhadores seriam os julgadores, decidindo 'pela técnica dos standards e do direito intuitivo e não pela técnica da norma legal'; a escolha do juiz togado, além do arcabouço de conhecimento jurídico, serviria para incutir maior respeitabilidade junto aos trabalhadores e empregadores; entretanto, os juízes togados não seriam juízes em seu sentido técnico, mas julgadores ou árbitros. A representação classista nos órgãos da Justiça do Trabalho somente foi extinta no Brasil com a Emenda Constitucional nº 24, de 9 de dezembro de 1999.

Outra característica herdada da Magistratura del Lavoro diz respeito ao poder normativo da Justiça do Trabalho. As relações coletivas expressavam a luta de classes. Por isso, o poder normativo criado pela reforma corporativa italiana, correspondia aos anseios da doutrina fascista que, abominando a luta de classes, entendia que não era de competência dos atores sociais resolver seus próprios conflitos de caráter econômico. A solução somente poderia ser decidida a contento por um órgão superior e imune a controvérsias: o Estado. Contemplado pela primeira vez na Constituição Brasileira de 1934, o poder normativo da Justiça do Trabalho foi também adotado pela Carta de 1937 e regulamentado pelo mesmo Decreto-lei 1.237, de maio de 1939. Adequado à Carta outorgada de 1937 e ao regime implantado por Getúlio Vargas, na medida em que a Justiça do Trabalho era um órgão do Poder Executivo e um setor do Ministério do Trabalho, o poder normativo era também imprescindível ao controle das relações coletivas de trabalho pelo Estado".

História (125 ) - Fascismo e Legislação Trabalhista no Brasil (3)

O advogado Cássio Mesquista Barros  é autor de um texto que compara as legislações trabalhistas do Brasil e e da Itália durante os regimes de Getúlio Vargas e Benito Mussolini.

"A Carta Constitucional de 1937, nos moldes da Carta del Lavoro, também garantia a liberdade de associação: 'Art. 122 - A Constituição assegura aos brasileiros e estrangeiros residentes no país o direito à liberdade, à segurança individual e à propriedade, nos termos seguintes: ............................................................ 9. a liberdade de associação, desde que os seus fins não sejam contrários à lei penal e aos bons costumes; 10. todos têm direito de reunir-se pacificamente e sem armas. As reuniões a céu aberto podem ser submetidas à formalidade de declaração, podendo ser interditas em caso de perigo imediato para a segurança pública'. No entanto, a Carta de 1937 também dispunha: “Art. 16. Compete privativamente à União o poder de legislar sobre as seguintes matérias: ................................................ XX. (...) direito de associação, de reunião (...)'

A Declaração III da Carta del Lavoro está, praticamente, quase que transcrita no art. 138 da Carta de 1937: '“Art. 138. A associação profissional ou sindical é livre. Somente, porém, o sindicato regularmente reconhecido pelo Estado tem o direito de representação legal dos que participarem da categoria de produção para a qual foi constituído, e de defender-lhes os direitos perante o Estado e as outras associações profissionais, estipular contratos coletivos de trabalho obrigatórios para todos os seus associados, impor-lhes contribuições e exercer em relação a eles funções delegadas de poder público'

A prerrogativa dos sindicatos de impor contribuições também vem expressa na mesma Declaração III da Carta del Lavoro. O art. 5º, 2ª alínea, da Lei italiana nº 563, de 3 de abril de 1926, criou o imposto sindical. Com o fim do regime corporativo na Itália, esse imposto foi extinto. No Brasil, o imposto sindical, criado pelo Decreto-lei nº 2.377, de 8 de julho de 1940, foi disciplinado pela CLT e, contraditoriamente, continuou a integrar as Constituições de 1946, de 1967 e de 1969. O imposto sindical, atualmente denominado contribuição sindical, foi mantido pelo art. 8º, IV, da Constituição de 1988.

A Carta del Lavoro, ao prever o regime corporativo, a colaboração entre os fatores de produção, o controle pelo Estado da atividade econômica, a vinculação da vida sindical à ordem econômica, o sindicato único baseado em categorias profissionais e econômicas, a criação por lei do imposto sindical, pretendia impor um Estado regulador, intermediador e fiscalizador. Nesse sentido Mariano Pierro ao afirmar: 'com a ordenação das categorias nas várias associações efetiva-se a organização sindical e forma-se a rede de entidades públicas (sindicatos) nas quais todas as categorias profissionais e econômicas encontram adequada colocação e passam a operar organicamente a serviço dos fins superiores da produção nacional.' A Carta Constitucional de 1937 seguiu os mesmos moldes da Carta del Lavoro ao dispor: 'art. 140. A economia de produção será organizada em corporações e estas, como entidades representativas das forças do trabalho nacional, colocadas sob a existência e proteção do Estado, são órgãos e exercem funções delegadas de poder público.'"

domingo, 21 de março de 2010

Italiani: O legado da arquiteta Lina Bo Bardi

 A arquitetura brasileira ainda hoje reverencia a obra e o talento da romana Lina Bo Bardi, expresso em importantes construções como Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o Sesc Pompeia (também na capital paulista). Uma breve biografia da arquiteta está disponível no site Instituto Bardi .
 
"Achillina Bo nasce em Roma a 5 de dezembro de 1914. Forma-se na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma e, já tendo iniciado sua vida profissional, muda-se para Milão, onde começa a trabalhar no escritório do arquiteto Giò Ponti, diretor da Triennale di Milano e da Revista "Domus". Durante a II Guerra Mundial, já em seu escritório próprio, a escassez de trabalho leva Lina a atuar como ilustradora e colaboradora de jornais e revistas como "Stile", "Tempo", "Grazia", "Vetrina" e "l'Illustrazione Italiana", além de editar a coleção "Quaderni di Domus". No dia 13 de agosto de 1943 um grande bombardeio é lançado sobre Milão e destrói o escritório de Lina.

Ela então entra para o Partido Comunista clandestino e o apartamento de sua família torna-se um ponto de encontro de artistas e intelectuais italianos. Com o fim da guerra, Lina viaja pela Itália para fazer uma reportagem sobre as áreas atingidas pelo conflito. Em Roma, funda a revista semanal "A - Cultura della Vita", com Bruno Zevi, e participa do Congresso Nacional pela Reconstrução. Em 1946, Lina casa-se com Pietro Maria Bardi, cujo sobrenome adota. Em seguida, o casal viaja para o Brasil. Em recepções, no Rio de Janeiro, conhecem personalidades como Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Rocha Miranda, Burle Marx e Assis Chateaubriand de quem Pietro recebe o convite para fundar e dirigir um museu de arte no país.

Um projeto arquitetônico de Lina abrigará meses mais tarde o MASP, o museu mais importante da América Latina. A arquiteta naturaliza-se brasileira em 1951, oficializando a paixão pelo país que a acolhera anos antes. A esse respeito, declara: "Quando a gente nasce, não escolhe nada, nasce por acaso. Eu não nasci aqui, escolhi esse lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, é minha 'Pátria de Escolha', e eu me sinto cidadã de todas as cidades". Também em 1951 foi concluída a construção da Casa de Vidro.

Erguida em um terreno de 7000 metros quadrados, foi a primeira residência do bairro do Morumbi e, aos poucos, foi sendo cercada por mata brasileira. Hoje é uma reserva tombada com espécies vegetais raras, uma amostra do que foi a antiga mata atlântica brasileira. Até a década de 90, Lina manteve intensa atividade em todas as áreas da cultura, tendo participado de inúmeros projetos em teatro, arquitetura, cinema e artes plásticas no Brasil e no exterior. Além de seu trabalho como arquiteta, merece destaque sua talentosa atuação como designer de móveis, objetos e jóias, artista plástica, cenógrafa, curadora e organizadora de diversas exposições e seu olhar sempre sensível à arte popular brasileira. Lina morre na Casa de Vidro em dia 20 de março de 1992, realizando o sonho declarado muitas vezes de trabalhar até o fim: deixa em andamento os majestosos projetos para a Nova Sede da Prefeitura de São Paulo e para o Centro de Convivência Vera Cruz".

História (124 ) - Fascismo e Legislação Trabalhista no Brasil (2)

Ao comparar a influência do regime fascista de Benito Mussolini nas leis trabalhistas brasileiras surgidas no governo brasileiro de Getúlio Vargas, o advogado Cássio Mesquista Barros lembra que:

"Embora a Declaração III da Carta del Lavoro garantisse a liberdade de organização sindical ou profissional, essa liberdade se restringia à liberdade de cada trabalhador de não se filiar a um sindicato único reconhecido. Na verdade, até essa possibilidade de não-filiação era quase que fictícia, na medida em que a colocação de mão-de-obra dependia tanto da inscrição no partido fascista quanto no sindicato único reconhecido.

A Carta Constitucional de 1937, nos moldes da Carta del Lavoro, também garantia a liberdade de associação: 'Art. 122 - A Constituição assegura aos brasileiros e estrangeiros residentes no país o direito à liberdade, à segurança individual e à propriedade, nos termos seguintes: ............................................................ 9. a liberdade de associação, desde que os seus fins não sejam contrários à lei penal e aos bons costumes; 10. todos têm direito de reunir-se pacificamente e sem armas. As reuniões a céu aberto podem ser submetidas à formalidade de declaração, podendo ser interditas em caso de perigo imediato para a segurança pública.' No entanto, a Carta de 1937 também dispunha: "'Art. 16. Compete privativamente à União o poder de legislar sobre as seguintes matérias: ................................................ XX. (...) direito de associação, de reunião (...)”

A Declaração III da Carta del Lavoro está, praticamente, quase que transcrita no art. 138 da Carta de 1937: 'Art. 138. A associação profissional ou sindical é livre. Somente, porém, o sindicato regularmente reconhecido pelo Estado tem o direito de representação legal dos que participarem da categoria de produção para a qual foi constituído, e de defender-lhes os direitos perante o Estado e as outras associações profissionais, estipular contratos coletivos de trabalho obrigatórios para todos os seus associados, impor-lhes contribuições e exercer em relação a eles funções delegadas de poder público.' " '

História (123 ) - Fascismo e Legislação Trabalhista no Brasil (1)

O regime fascista implantado na Itália por Benito Mussolini repercutiria no Brasil sobretudo no tocante ao Direito Trabalhista institucionalizado durante o governo ditatorial de Getúlio Vargas, seja no próprio texto da Constituição de 1937 ou mesmo nos artigos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). No site Mesquita Barros Advogados, o advogado Cassio Barros faz comparações entre as a Carta Del Lavoro com artigos da Constituição de 37 e da CLT.

“A Declaração II (O valor do trabalho e da produção) da Carta del Lavoro tem o seguinte teor: ‘O trabalho, sob todas as suas formas de organização ou de execução, intelectuais, técnicas ou manuais, é um dever social. A esse título, e somente a esse título, é tutelado pelo Estado. O conjunto da produção é unitário do ponto de vista nacional; seus objetivos são unitários e consistem no bem-estar dos indivíduos e no desenvolvimento da potência nacional. Esse dispositivo foi praticamente transcrito no art. 136 da Carta Constitucional de 1937, elevando o trabalho à condição de dever jurídico: ‘O trabalho é um dever social. O trabalho intelectual, técnico e manual tem direito à proteção e solicitude especiais do Estado. A todos é garantido o direito de subsistir mediante o seu trabalho honesto e este, como meio de subsistência do indivíduo, constitui um bem que é dever do Estado proteger, assegurando-lhe condições favoráveis e meios de defesa.’ ”.

“No tocante à vida sindical, a Carta del Lavoro consagrava na Declaração III: ‘A organização sindical ou profissional é livre. Mas só o sindicato legalmente reconhecido submetido ao controle do Estado tem o direito de representar legalmente toda a categoria de empregadores ou de trabalhadores para a qual é constituído; de defender os interesses dessa categoria perante o Estado e as outras associações profissionais; de celebrar contratos coletivos de trabalho obrigatórios para todos os integrantes da categoria, impor-lhes contribuições e exercer, relativamente a eles, funções delegadas de interesse público.’
A Carta Constitucional de 1937, nos moldes da Carta del Lavoro, também garantia a liberdade de associação: ‘Art. 122 - A Constituição assegura aos brasileiros e estrangeiros residentes no país o direito à liberdade, à segurança individual e à propriedade, nos termos seguintes: ............................................................ 9. a liberdade de associação, desde que os seus fins não sejam contrários à lei penal e aos bons costumes; 10. todos têm direito de reunir-se pacificamente e sem armas. As reuniões a céu aberto podem ser submetidas à formalidade de declaração, podendo ser interditas em caso de perigo imediato para a segurança pública’ ".

Italiani – A grande aventura de Pietro Maria Bardi no mundo das Artes (2)

O site Instituto Bardi resume como Pietro Maria Bradi e o empresário Assis Chateaubriand decidiram levar adiante um projeto que resultou na criação do Museu de Arte de São Paulo - MASP.

"A história do surgimento do museu de arte mais importante da América Latina poderia ser o roteiro de um filme cujos temas fossem idealismo e sucesso. Tudo começou quando Assis Chateaubriand, advogado, jornalista e empresário dono de uma rede de jornais, revistas e rádio, conheceu Pietro Maria Bardi, um marchand italiano recém chegado ao Rio de Janeiro. Corria ainda o ano de 1946. Bardi organizara uma mostra de pintura italiana que recebia a visita de Chateaubriand. Foram apresentados e, na mesma noite, o empresário, então conhecido como "rei da comunicação", comentou o desejo de criar um museu de arte no Brasil. Pouco tempo depois, num jantar oferecido por Chateubriand, este fez a Bardi o convite para que dirigisse o empreendimento. Tinha início uma parceria com pouquíssimas divergências. Uma das únicas foi a respeito do nome do museu: Museu de Arte Antiga e Moderna para Chateaubriand, e Museu de Arte para Bardi. Argumentando que "arte é uma só", o marchand vence a discussão.

Está criado o MASP. Decide-se que o museu será em São Paulo - cidade que vivia na época a prosperidade trazida pela cafeicultura. O prédio que abrigaria a sede dos Diários Associados, principal jornal de Chateaubriand, está em construção e surge a idéia de ocupar um de seus andares com o museu. Numa visita à obra, Chateaubriand apresenta Bardi ao seu pessoal: "Aqui, neste espaço, será inaugurado um museu.

Este é o professor Bardi, seu diretor". Bardi carregará para o resto de seus dias o título ganho nessa tarde. Inaugura-se, a 2 de outubro de 1947, o Museu de Arte de São Paulo - MASP. Lina Bo Bardi é, desde o primeiro momento, responsável pelo projeto arquitetônico do museu que, a princípio, ocupa a área de 1000 metros quadrados no segundo andar do edifício dos Diários Associados, na 7 de Abril, centro de São Paulo. O acervo contava ainda com poucas peças e havia duas exposições temporárias: uma Série Bíblica de Cândido Portinari e outra com telas do pintor italiano Ernesto De Fiori. A proposta era realizar exposições periódicas, promover os aspectos didáticos da arte com cursos e conferências e também abrir escolas sobre assuntos pouco difundidos. Bardi queria criar um "museu vivo" e encontrou no Brasil o cenário perfeito para seu objetivo:

"Eu venho da Europa. Lá, os museus são instalados em edifícios históricos e quando são construídos novos, a tarefa é confiada a ruminadores de velhos estilos arquitetônicos, com a intenção sádica de fazer nascer morto um edifício que deve conservar coisas mortas. Assim, na minha opinião, os americanos serão verdadeiramente os primeiros a compreender a função educativa dos novos museus. O Museu de Arte de São Paulo também será um deles. Parece-me que no Brasil nos damos conta de que as idéias audazes não são utopias, enquanto, ao contrário, as utopias não são nunca audazes". Um exemplo de que Bardi conseguiu cumprir seu ousado projeto foi o sucesso de todas as escolas que integraram o MASP: a de gravura, pintura, desenho industrial, escultura, ecologia, fotografia, cinema, jardinagem, teatro, dança e até moda.

Para formar a histórica pinacoteca, Bardi, já naturalizado brasileiro, voltou a uma Europa arrasada no pós-guerra para garimpar obras, respaldado pelo prestígio financeiro de Chateaubriand e pelo seu próprio e apuradíssimo faro de expert em arte. De 1947 a 1953, comprou preciosidades a preços baixíssimos, como todos os 73 bronzes de uma série do escultor francês Degas, arrematados por US$ 45 mil - hoje, apenas uma das peças, a Bailarina, vale US$ 400 mil -, além das telas O Escolar, de Van Gogh, e O Conde-Duque de Olivares, de Velázquez, adquiridas por US$ 40 mil cada uma e atualmente avaliadas em US$ 30 milhões. Dentre as cerca de 4 mil obras que compõem o acervo, estão também telas de Renoir, Rafael, Goya, Gauguin, Ticiano, Picasso, Modigliani, Lucas Cranach e Cézanne, entre outros".