segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Oriunidi - Sangue italiano nas veias do Modernismo brasileiro: Brecheret e o Monumento às Bandeiras

O Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret, implantado junto ao Parque Ibirapuera, em São Paulo, retrata índios, negros e brancos, integrantes das bandeiras sertanistas que, partindo de São Paulo no século XVII, desbravaram o interior do território brasileiro em busca de riquezas. Idealizado em 1920, o monumento foi inaugurado mais de trinta anos depois, em 1953.

Incorporado à paisagem paulistana, tornou-se um de seus mais expressivos símbolos. Brecheret propôs a construção de um monumento em homenagem às bandeiras, um tema com grande apelo histórico para os paulistas naqueles anos.

A escolha do tema partira do escritor Menotti del Picchia, que afirmava: "Os paulistas relembrariam os heróis de sua terra nas comemorações do Centenário da Independência.” Uma maquete foi exposta na Casa Byington, à rua XV de Novembro, mas não conseguiu atrair patrocínio oficial ou particular, apesar da presença do Presidente do Estado, Washington Luis, na cerimônia de abertura.

Em 1921, Brecheret foi estudar em Paris, com o patrocínio do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo, onde entrou em contato com os mais eminentes escultores europeus, como Maillol e Henry Moore. Até 1936, alternou residência entre o Brasil e a França, realizando inúmeras exposições nos dois países. Mesmo estando fora, foi uma das mais importantes figuras da Semana de Arte Moderna de 1922, onde expôs algumas de suas esculturas.

Uma nova proposta do Monumento às Bandeiras foi apresentada ao Governo do Estado em 1936. O artista compôs um grupo escultórico formando um bloco compacto esculpido em granito. O interventor federal em São Paulo, Armando de Salles Oliveira, decidiu implantá-lo à entrada do Parque Ibirapuera, que ainda estava em projeto. As obras tiveram inicio no mesmo ano e prosseguiram em ritmo intenso até o ano seguinte. Com o começo da Segunda Guerra Mundial, os recursos aplicados na obra foram reduzidos.

O ritmo da construção diminuiu entre 1938 e 1939, e foi totalmente paralisada nos anos seguintes. O Governo do Estado resolveu transferir suas obrigações em relação à construção para a Prefeitura, em 1944, que firmaria um contrato com o escultor em 1946. Em maio do mesmo ano foram contratados os escultores João Scuotto e Ernesto Portante, responsáveis pela execução dos modelos em gesso a serem copiados posteriormente pela oficina de cantaria.

Em seguida, a Prefeitura publicou editais de concorrência para o fornecimento de granito, ganha pela firma Irmãos Milanezi, proprietária de uma pedreira no município de Mauá (SP). O volume total de pedra necessário à construção do monumento estava estimado em 527,69 m3, dispostos em blocos regulares de diversos tamanhos. Uma pedreira concorrente oferecia granito Itaquera, de composição fina e duro de desbastar, o que possibilitava um acabamento mais firme. Sua formação, no entanto, dificultava a retirada em blocos.

O granito de Mauá, por sua vez, apresentava composição mais grossa. Sendo mais poroso, era também menos resistente, tornando o desbaste menos penoso. Além disso, sua formação permitia a retirada em grandes blocos, o que contemplava o projeto de Brecheret. Por essas características, preferiu-se o granito Mauá ao Itaquera. A Oficina de Cantaria A. Incerpi e Cia. ganhou a concorrência para a execução da escultura em granito. Em 1947, a Prefeitura liberou um crédito especial para a construção e as empresas vencedoras das concorrências foram contratadas. Em meados do ano, começou, de fato, a construção em pedra, que duraria cinco anos, de forma totalmente descontínua. Entre 1949 e 1950, Brecheret resolveu alterar a base do monumento.

Em vez de escadarias, optou por uma base mais simples, com as laterais em plano inclinado, quase vertical. Em 1951, a Oficina Incerpi começou a montar os blocos de granito, já esculpidos, no Ibirapuera, como num grande quebra-cabeças, sendo que o efeito final deveria dar a impressão de um único bloco de rocha, como previa Brecheret.

O concreto foi usado no enchimento da canoa, para dar mais rigidez ao conjunto. No dia 25 de janeiro de 1953, às vésperas do IV Centenário da fundação da cidade de São Paulo e depois de trinta anos de sua concepção, a obra foi inaugurada com a base por concluir.

Brecheret estava cansado e queria entregar uma obra que lhe parecia interminável. Uma nova inauguração foi realizada em janeiro de 1954. Com cerca de 11m de altura total por 8,40m de largura e 43,80m de profundidade, a obra está posicionada no eixo sudeste - noroeste, no sentido de entrada das bandeiras sertanistas em busca de terras no interior. Ao redor do pedestal, há várias inscrições no granito. Na face frontal do pedestal, um mapa do Brasil mostra os percursos que os bandeirantes realizaram pelo interior do país, desenhado por Affonso de E.Taunay.

Na face lateral esquerda do pedestal, outra placa em granito polido traz a inscrição: GLÓRIA AOS HERÓIS QUE TRAÇARAM O NOSSO DESTINO NA GEOGRAFIA DO MUNDO LIVRE, SEM ELES O BRASIL NÃO SERIA GRANDE COMO É. CASSIANO RICARDO E na face lateral direita do pedestal, lê-se: BRANDIRAM ACHAS E EMPURRARAM QUILHAS VERGANDO A VERTICAL DE TORDESILHAS GUILHERME DE ALMEIDA

A quarta figura à direita do monumento, no bloco imediatamente seguinte ao dos cavaleiros, traz a seguinte inscrição no seu ombro direito: “Auto-retrato do escultor Victor Brecheret 02-10-1937”. A apropriação do monumento pela população se expressa nos apelidos carinhosos que recebeu ao longo do tempo, como “empurra-empurra”, “deixa que eu empurro” ou “não empurra”.(Fonte: Prefeitura Municipal de São Paulo)

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